Um mestre sem culpas e impiedoso

By Alú Rochya - setembro 26, 2020

Coronavírus, um mestre impiedoso

Personalizando  essa entidade intangível que chamamos de destino, o infalível Jorge Luis Borges nos deixou uma frase tão breve como inquietante: Cego às culpas, o destino pode ser impiedoso com as mínimas distrações. Se hoje pudéssemos cometer a heresia de trocar aí a palavra destino pela palavra coronavírus, acharíamos uma perfeita definição do modo como se comporta e evolui a pandemia. Cruel, impiedosa e deixando lições de mestre.

O baile começou em 11 de março de 2020, quando a COVID-19 foi caracterizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia. Aí o bicho pegou de vez  e os governos entraram na correria para tentar dar conta do recado. Até hoje, o novo coronavírus infectou mais de 30 milhões de pessoas e matou mais de um milhão.

O impactante das cifras e a velocidade de sua multiplicação poderiam atuar como uma global sacodida de consciência,  um planetário "chega" que nos estimulasse a ver e rever a realidade de todo um sistema de vida em crise. Porém, não é isso o que acontece. O mundo ainda acorda e vai dormir desapontado. A humanidade ainda não consegue traduzir os significados mais transcendentes da pandemia. Mas, entretanto, já da para tirar algumas lições mínimas, obvias. Ensaiemos:

Não temos o tal de controle. Sobre nada. Não é apenas uma doença se alastrando pelo planeta, nos limites da contenção sanitária. Não. O bichinho desequilibrou tudo. Custa acreditar, porém os fatos estão aí na nossa frente. Tudo, absolutamente tudo foi modificado. Não ficou nenhuma atividade humana sem ser afetada e, agora obrigada a se reformular. Como e possível? Só se as coisas já estavam andando feio antes mesmo do vírus aparecer.

Demitir a ideia artificiosa de termos o controle de alguma coisa pode ser a cura de um mal que nos petrifica até nas mesmices ineficientes e fazem deste mundo um horroroso labirinto sem saída.  Assim poderíamos abrir as portas a nosso infinito poder de criatividade.

Não temos todas as respostas prontas. Nem para este vírus nem para nada. A onipotência que qualifica os seres humanos que se acham donos do planeta ficou sem gás. Cadê as soluções? As respostas não aparecem porque nem tudo o que existe e nem tudo o que está acontecendo é de nosso conhecimento. Tem mais além de onde podemos ver, há bem mais sóis crestando entre as estrelas.

Duvidar é começar a saber. A dúvida nos conduz até a certeza. Mas temos que praticar a dúvida para alcançar as certezas novas, que ainda não as percebemos mas já pairam no ar e que não se parecem com nada que tenhamos imaginado alguma vez.

O tamanho do poder não é proporcional ao tamanho físico. A experiência de Davi e Golias parece que não foi muito exemplar assim. Porém,  hoje assistimos, atónitos, a ação de  uma entidade tão minúscula e invisível aos nossos olhos, que veio como gotas em silêncio tão furioso, derrubando homens (e não outros animais), devastando a sede desses matagais, devorando árvores, pensamentos e tal.

Não tem governo poderoso, FMI, multinacional, bilionário, bomba atômica, banco, submarino nuclear, nada, nada que pare o bichinho. Quanto menos poderão parar as mudanças que pedem harmonia.

Tudo é impermanente. Tudo muda o tempo todo. Se você achar que não é assim, lhe acontece isso: a vida te dá surpresas. Nada é para sempre. Até o próprio vírus também muda, ele não fica quietinho até a gente achar a bala de prata que irá acabar com ele. Nisso também está sendo um mestre.

O universo anda sem parar em um movimento de permanente expansão. Porque com nós e com a Terra seria diferente? Se, de todos modos, o universo e a galáxia vão nos puxar nesse sentido, não seria mais inteligente detectar o sentido da expansão e alinhar-nos com ele?

Todos os sistemas modernos de saúde do mundo são pífios. Porque nenhum está organizado para curar a alma (que é o que somos) e, por tanto, carecem da única medicina que realmente cura: o amor.

O país tido como a maior potência económica y militar do mundo mostra toda sua impotência para frear a pandemia e bate recordes de contágios e mortes. Quando você olha para o bizarro presidente desse pais, consegue perceber o amor?

O sistema econômico que garantiria  nossa sobrevivência era de mentirinha. Uma pseudo greve mundial disfarçada de isolamento social acabou com todo o seu pseudo poder. Nos enganaram o tempo todo. Em apenas seis meses as poderosas economias do mundo entraram numa virtual recessão e os cálculos de perdas passaram de imaginar 1 trilhão de dólares em março a estimar agora 25 trilhões de dólares. Haja zeros...

Um sistema económico que mede seu sucesso na quantidade de dólares em vez de medir a quantidade de bem-estar e felicidade dos seres vivos é um sistema fadado ao fracasso. E já começou a ruir.

A ciência também era de mentirinha. A classe científica sempre apareceu como dona de todo o saber sobre a vida. Em verdade, ela pretendeu ocupar o lugar de Deus negando a espiritualidade. Tinham respostas "científicas" para todo... só que não. A novidade os colocou off-side e silenciam o desespero. Ainda nem conseguem saber direito como se comporta o vírus, quais são todas as vias de contagio, quais as consequências, como funciona a imunidade e um monte de perguntas flutuando na ignorância dos sabichões.

Hoje, os "doutores" têm a magnífica oportunidade de descobrir uma coisa maravilhosa: a humildade. E, tão humildemente como Sócrates, aceitar que só sabem que nada sabem. E feitos alunos, discípulos,  deixar de lado aquela velha opinião formada sobre tudo e pesquisar de verdade, atendendo tanto as evidências da matéria como os sinais misteriosos do invisível. Talvez por aí comecem a achar as respostas.

A maioria das pessoas (quase) nunca olharam para si mesmas. Por isso são réplicas dos modelos que estão fora delas e hoje não aguentam o espelho que a quarentena coloca em sua frente.

Pois bem, essa era a ideia, deter por um momento todo o bobo e predador sistema produtivo para tirar esse tempinho pessoal e responder as perguntas que não querem calar dentro de nós: quem eu sou? de onde eu venho? o que estou fazendo aqui?...

Mas as pessoas fogem disso por sentir que por esse trilho irão a se encontrar com o pior delas, o que é verdade. Mas também descobrirão o que têm de melhor, o mais bonito, as suas maravilhosas luzes com as quais poderão iluminar as suas próprias sombras.

E disso também têm medo. De reconhecer e exercer os poderes únicos de cada um. O sistema nos necessitava escravos e pressionava para acharmos inferiores, incapazes de tomar conta de nossa própria vida, de nossa experiência singular.

Seria bom começar a recuperar nossos poderes porque o sistema já foi, não tem mais vez. Esse é o tal de fim do mundo. Tudo o que você vê aí é uma fachada, uma ilusão. Não se iluda, não me iludo.

Até hoje, como dizia Jorge Luis Borges, "tudo era vasto, mas ao mesmo tempo era íntimo y, de alguma maneira, secreto"... Mas chegou a hora da transparência e da verdade e ninguém poderá mais se esconder da poderosa e reveladora luz dessa tocha.
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(continuará)...

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