A arte de escutar é como uma luz que dissipa a escuridão da ignorância. - Tenzin Gyatso (Dalai Lama) - |
➽ Nunca antes a humanidade tem necessitado tanto de escutar, de escutar-se, de dialogar verdadeiramente com o outro, para reconhecê-lo, percebê-lo semelhante e diferente, e aceitá-lo, como um outro eu. Em seguida, fazer dessa diferença uma fonte de águas diversas que enriqueça nosso afluente e, afinal, confluir com o semelhante num leito comum, num devenir compartilhado, revelando os sinais para construir novas ordens, em resposta aos interrogantes e incertezas do caos global.
Porém, o que mais temos são ouvidos surdos, feitos de rompimentos, quebras e cisões várias, um obstáculo cultural da atual civilização da competitividade e da confrontação, onde o outro, em vez de ser visto como uma oportunidade favorável, é enxergado como um perigo em potência.
Essa visão leva hoje a humanidade a padecer o horror de mais de um centenar de guerras de todo tipo que deixam um hediondo rastro de morte, destruição e sofrimento. Além dos conflitos mais conhecidos como Rússia-Ucrânia, Estados Unidos-Irã, Israel-Palestinos, outros atores armados como guerrilhas, frentes de libertação nacional, grupos separatistas, cartéis, facções criminosas, grupos terroristas, protagonizam confrontações diversas que têm uma base em comum: a ausência de diálogo e negociações entre as partes.
Todos falamos, todo mundo fala, sim, mas todo mundo escuta? Escutamos o outro, aquele que é diferente de nós? Pode ser um familiar, um amigo, um governante, um sacerdote, o amor de nossa vida, até mesmo um inimigo. Ouvimos, sim, talvez lhes ouvimos, porém, os escutamos? Ouvir e escutar não são a mesma coisa.
Ouvir é um ato praticamente involuntário, responde a uma função fisiológica. Quando ouvimos, recebemos ondas sonoras e percebemos os sons, captamos as palavras e até decodificamos os símbolos linguísticos. Ouvimos, fazemos uso de nosso sentido da audição. Porém, ao ouvir, não damos muita atenção. Pegamos o discurso, mas não apreendemos as mensagens. Ouvimos o que diz o outro, mas não o que ele quer dizer com isso e, muito menos, o que ele sente.
Escutar é outra coisa. É uma recepção fina, é ouvir prestando atenção, decodificando o conteúdo, interpretando a mensagem, captando o essencial, o significado do dito. Ouvir é como aprender a tocar uma música "de ouvido" e escutar é saber ler a partitura, com todos seus detalhes.
Escutar é abrir todos os canais para que o outro - qualquer coisa que seja o outro; um humano, um animal, um trovão, uma cachoeira, uma orquestra - traga até nós todos os sentidos de seu som. E assim registrar o mais certo possível o que esse som expressa. Não o que imaginamos, o que supomos, o que parece-nos, senão o que é.
A diferença é absoluta. Ouvimos com os ouvidos e escutamos com a alma.
Um velho mestre confessava seu espanto de ver, nos tempos atuais, como as pessoas deviam optar pela escuta de um psicólogo, mesmo sendo um estranho, na hora de externar aquilo que os amigos não escutavam. O psicólogo hoje se faz necessário porque o exercício curioso e solidário de escutar anda sumido.
"Saber escutar é o melhor remédio
contra a solidão, a loquacidade e a laringite".
- William George Ward -
Na maioria dos casos, não nos escutamos. A maior parte do tempo não nos comunicamos. Só tomamos turnos para falar. Fala este, depois aquele, aí é minha vez e assim por diante. Cada um fala o seu, mas ninguém recebe o que é do outro. Ninguém segue o fio da conversa, ninguém pratica uma escuta ativa, registrando o que o outro diz, em vez de apenas esperar a sua vez de falar.
Por qual razão será que acontece tamanha assimetria? Será que prestamos ouvidos com nossos próprios temores, nossas ansiedades, nossas ambições, nossos desejos? Será que com essas projeções acabamos botando um filtro a tudo aquilo que ouvimos mas preferimos não ouvir?
Se for assim, resultará impossível recepcionar o que vem do outro, o que chega desde fora de nós. Antes do outro concluir seu enunciado, nós já temos julgamento e sentença sobre o ponto. O que vem de fora atua apenas como um gatilho para disparar nossos próprios pensamentos. Sem saber o que nos quer comunicar o outro, não pode haver verdadeira comunicação. De tal modo, o contato real com o outro simplesmente não existe.
Quando, andando na rua, nos deparamos com um cachorro nos encarando e latindo, o primeiro que sentimos é a ameaça de um ataque. Na verdade, na maioria dessas situações, os cachorros latem por medo de serem atacados por nós. Quanto mais pequenos eles são, mais medo têm e latem mais, achando que, posando de ferozes, poderão espantar o perigo.
No entanto, a gente escuta seu próprio medo, o corpo entra em estado de alerta e disposto a lutar, sem escutar o que tenta nos comunicar o cão: "eu estou com medo de você, vai embora ou então vou atacá-lo". Em geral, se você não der bola para o canino e seguir seu caminho, nada acontece, ele se tranquiliza e deixa de latir.
Como temos aquela velha opinião formada sobre tudo, quando ouvimos alguém, apenas o fazemos para confirmar nossas ideias. Geralmente, evitamos escutar outra coisa, porque isso poderia colocar em questionamento nossas crenças e obrigar-nos a revisar aquilo que tínhamos como verdade, e pensamos que essa situação nos deixaria inseguros ou até vulneráveis.
A consequência dessa conduta é ficar reclusos numa torre, isolados, prisioneiros de nós mesmos, sequestrados num autismo esterilizante, frustrando qualquer evolução pessoal. Porque esta chega com as descobertas, as revelações, as diferenças. Negando a consciência daquilo que está além de nossa pele, acabamos parciais, incompletos, infelizes.
Se estamos parados do outro lado do balcão, no lugar de quem fala e não é escutado, sofremos a frustração e uma consequência parecida. Não sermos escutados, recebidos, recepcionados, nos faz sentir na mais absoluta das solidões, isolados da experiência do mundo. Sem troca, sem intercâmbio, saímos da conversa tal como entramos, sem ter modificado, acrescentado ou até mesmo ratificado nem um ápice.
Vivendo desse modo nossa vida social, na verdade, estamos vivendo um faz de contas, um simulacro.
O rasgo comportamental mais notório da humanidade é o medo. Em certo momento da história, algum membro da casta dominante notou que os seres humanos perdiam seu poder se ficavam presos ao medo. Desde então, o medo virou um instrumento decisivo de todo exercício de submissão. A partir daí, o humano tem medo até de sua própria sombra.
O fato de não escutar a outra pessoa, fechar o canal de percepção daquilo que a pessoa tenta nos comunicar, faz parte de uma manobra de defesa, por um medo apoiado num argumento um tanto estúpido. Supõe a pobre mulher, o pobre homem, que se escuta uma coisa diferente a seu esquema de pensamento, a estrutura que sustenta suas crenças poderia rachar, fissurar em algum ponto, justo aí por onde poderia filtrar-se uma dúvida. E supõe que a dúvida irá debilitá-la (lo) quando, na realidade, a dúvida sempre abre a porta a um novo conhecimento cuja aquisição irá empoderar a pessoa, fazendo-a mais forte.
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Eu gosto de escutar. Eu aprendi muito escutando cuidadosamente. A maioria das pessoas nunca escuta. - Ernest Hemingway - |
O som é uma linguagem, um meio para comunicar alguma coisa, mas não é essa coisa. O relâmpago não é o trovão; o relâmpago anuncia o trovão. Pela diferença entre a velocidade da luz e a do som, o trovão chega depois. E o trovão, por sua vez, anuncia o raio, mas não é o raio, a descarga elétrica que cai depois.
O choro de um bebê não é a fome do bebê, mas o modo que ele usa para pedir ser amamentado. O rumor da água correndo no riacho não é a água, é o rumor e, no entanto, falamos assim: 'ce tá ouvindo a água? Se esse tororó é apenas um murmúrio, a água fala que está descendo escassa, que temos de cuidá-la. Se, em cambio, o barulho é grande e vai aumentando, a água diz que está vindo muita, demais, numa crescente, que devemos tomar cuidado. Isso é escutar o que a água nos diz e não apenas o som de seu anuncio.
As palavras em si mesmas não dizem muito. Sozinhas, soltas, até podem confundir. Cada palavra vem com sua hora, com seu tom, seu sentimento, sua energia particular. A palavra mamãe pode significar muitas coisas diferentes e mesmo até contrapostas. Pode ser sinônimo de amor, abrigo, cuidado, alimento, mimos, compreensão, ternura, paciência. Mas, a depender da pessoa que a pronuncia, pode querer dizer abandono, desamparo, frialdade, fúria, ameaça, castigo, crueldade, desamor.
Sozinha, a palavra mamãe diz tudo e não diz nada. Tudo vai depender de quem a pronuncie, como, quando, onde, evocando que lembranças, com que carga de experiência, mais positiva, mais negativa.
Num diálogo, o significado que irá exalar essa palavra também dependerá de quem a escute, pois para o receptor o vocábulo tem seu próprio significado, porém ele não deve distorcer o significado dado pelo emissor. E para isso temos de escutar bem, colocando-nos no lugar do outro, para descifrar a alma do outro, a mamãe do outro.
O ponto está em perceber o que há detrás das palavras, detrás dos sons. E aí aparece um auxiliar chave: o silêncio. Nosso silêncio, limpando o canal de qualquer ruído, externo ou interno, para que a mensagem seja recebida de modo integral. Escutar zerado de todo. Mas usando nossa percepção para uma escuta ativa.
Sempre devemos lembrar que nada do que a outra pessoa nos diga será igual a algo nosso. Todos somos parte de um mesmo todo, mas cada um é uma parte única. O outro, como eu, é um exemplar único no universo. Ambos podemos torcer pelo mesmo time, praticar a mesma religião, gostar da mesma comida, ter os mesmos sonhos, porém, torcemos, praticamos, gostamos, sonhamos de maneira diferente, diversa. Daí que cada coisa falada será parecida, mas no fundo nada será igual. Sua fala trará sempre uma novidade. E essa novidade pode ser uma parte de nós mesmos que ainda não tínhamos reconhecido. Escutá-lo, em silêncio, valerá a pena.
É por isso que o primeiro exercício é nos liberar da obrigação de imputar dados e, em câmbio, receber a energia que vem no fluir desses dados e que nos revelará a mensagem, o que quer ser dito pelo outro.
Soltar, também, qualquer interesse pessoal que nos faça escutar o que desejamos em lugar da verdade. Uma vez que tenhamos a verdade perante nós - gostando ou não dela - aí, sim, poderemos avaliar como bate com nosso interesse. Mesmo que às vezes, como disse o poeta, conhecer a verdade seja como esfregar-se com areia o paladar.
Até mesmo doendo, se não acessamos a verdade, nossas ações posteriores serão erradas por estarmos pisando em falso. Em qualquer caso, conhecer a verdade libera nossas potências, nos empodera, porque nos possibilita a livre escolha.
"Os amigos são essas pessoas raras
que perguntam como estamos e ficam
calados, esperando para escutar a resposta".
- Ed Cunningham -
A vida hoje está acontecendo num momento rarefeito do mundo. Tudo está confuso, misturado, contaminado, pleno de contradições. Há todo um sistema obsoleto, velho, que está morrendo e, simultaneamente, algo novo começa a nascer. Poderíamos afirmar que é um momento de passagem de uma era para outra, e nessa transição sumiram as certezas.
Num momento como o presente, se faz imperioso decodificar o que está acontecendo para agir em nossa vida do jeito mais certo possível, e o melhor é manter nossa escuta apurada.
O vértigo destes tempos produz transformações numa velocidade espantosa. Se não acompanharmos as mudanças, boas ou ruins, mudando também nós mesmos, a vida passará por cima da gente como um trem bala e um belo dia iremos nos descobrir ancorados no nada.
Escutar é ver, sentir, perceber o que fala nosso interior e também o que fala o exterior, aquelas coisas diferentes das que já conhecemos. Se descobrirmos as diferenças e as coincidências lá fora, veremos um mundo mais amplo e uma vida mais rica que nos facilitarão as escolhas e tomadas de decisões certas em meio ao caos do fim dos tempos.
Escutar é uma arte. De grande beleza e utilidade. Uma arte que qualquer um pode praticar, não precisa ser um artista especial. É um exercício básico que consiste, simplesmente, em escutar, perceber com nossa alma, com o coração.
Aqueles que aprenderam a amar verdadeiramente, de maneira incondicional, sabem escutar. Porque estão em contato espiritual com o que amam. Sem outro interesse pessoal que estar em contato, escutar sem condicionamentos, livremente. E esse escutar livre ilumina a verdade e a verdade nos ilumina.
Numa sociedade ridiculamente acelerada, onde mandam os egos vira-latas, cheios de medo de ficarem para trás, se faz difícil escutar, não é tarefa fácil. Escutar exige mandar nosso ego ficar quietinho, doar um tempo a nosso interlocutor e silenciar nossa língua e nossa mente.
Simplesmente escutar. Sem preconceitos, sem pensamentos, sem a cabeça em outra coisa. Com empatia, focados naquele que nos fala, abertos, curiosos. Deixando-nos levar pelo fluxo verbal do outro, sem opor resistência, sem colocar barreiras, atentos ao significado das palavras, dos sons.
Escutar o que é, tal qual é - gostando ou não -, libera. Deixamos de ficar presos a suposições, a achismos, a pareceres, que são exercícios caprichosos do cérebro para abrir as portas de nosso coração, onde reside nossa maior inteligência e, portanto, a capacidade de avaliar mais certeramente.
Escutemos, vejamos, percebamos as palavras, os sons, os silêncios do nosso interior, do mundo e do espaço infinito. Escutemos, vejamos, percebamos os sinais. E iremos andar menos errados, melhor orientados, mas afinados com a verdade. E a verdade nos fará livres. ✤
AR 🌻
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