| O desenvolvimento e uso da tecnologia devem respeitar, incondicionalmente, a dignidade da pessoa humana. - Papa Francisco - |
➽ As vantagens inimagináveis que hoje nos proporciona a tecnologia para otimizar nossa experiência de vida foram, em grande medida, neutralizadas, diminuídas e relativizadas pelo sistema econômico predominante. No exercício de controle das novas ferramentas, a Matrix acabou usando-as para converter as pessoas em meras peças funcionais de suas operações econômicas e suas vorazes ambições.
Essa tendência, hoje parece escalar mais um degrau. As firmas OpenAI, Anthropic, Alphabet (dona de Google), Meta, PayPal e Palantir aceleraram na disputa global pelo controle político e econômico da Inteligência Artificial e já desembarcaram em Washington com oficinas e equipes de lobby para modelar as políticas públicas dos Estados Unidos, país desde onde elas impõem condições para o resto do mundo.
O termo high-tech ou alta tecnologia engloba o que existe hoje de mais desenvolvido em ciência, engenharia, softwares e métodos. Aí entram, em destaque, a Inteligência Artificial e a Automação Industrial que trabalham com algoritmos complexos capazes de aprender, tomar decisões e gerar conteúdos ou análises preditivas. A Computação em Nuvem (Cloud Computing) permite acessar dados e softwares de maneira remota. Com essas ferramentas, as empresas procuram o aumento da produtividade e a redução de custos, otimizando tempo e recursos, correndo atrás de seu objetivo principal: grana, grana, grana.
Antigamente, as cidades e povoados tinham um mercado, um local único e específico onde as pessoas se encontravam para se abastecer de alimentos e trocar, comprar, vender de tudo. Hoje, os próprios centros urbanos foram convertidos em um extenso e imenso mercado. As coletividades, organizadas primeiramente ao redor de interesses sociais, culturais e espirituais comuns, passaram a ser comunidades mercantilizadas onde as interações humanas são tratadas como mercadoria, passíveis de serem compradas e vendidas.
As novas tecnologias jogam um papel decisivo nessa mutação, pois abrem uma instância ainda mais abrangente: o comércio virtual. Aí os indivíduos são pegos em seus próprios lares para serem transformados em clientes manipulados pelos algoritmos e pela instantaneidade do clique, um fenômeno que se reflete no rápido crescimento do e-commerce nos últimos anos.
Hoje é notória a expansão desse modelo com a aplicação e o uso intensivo da Inteligência Artificial para a personalização da oferta em tempo real, estimulando e pressionando a compra, restringindo a capacidade de avaliação respeito à necessidade de um bem ou um serviço e diluindo o poder de decisão na hora de efetivar o gasto.
O sistema da Matrix se movimenta pela obsessão por obter o maior lucro possível, propiciando uma mera e absurda acumulação de capital financeiro em mãos de um reduzido grupo das elites econômicas nacionais e internacionais. Em uma sociedade mercantilizada, essa operação significa acumulação de poder, que se administra com o desenvolvimento e controle da alta tecnologia.
As possibilidades comunicativas e transacionais que traz o gesto mínimo de apertar um simples botão num diminuto aparelho têm permitido globalizar os negócios em todas suas instâncias, porém não alcançaram a mesma dimensão na hora de atuar como facilitador e solucionador global em questões políticas, sociais, ambientais, culturais, espirituais. Pior ainda: ao ser mercantilizada toda atividade humana, esses aspectos acabaram sendo incorporados ao mercado e apreciados ou depreciados segundo as margens de ganhos que possam gerar, para o qual é imprescindível o consumo.
Coração do capitalismo, o consumo é o músculo que bombeia o lucro que vai se converter em capital, que não é outra coisa que uma imensidão de grana acumulada que simboliza o tamanho do poder econômico e financeiro de uma empresa. Essa dinheirama é o que lhe outorga capacidade e autoridade para influenciar as tendências dos mercados e condicionar as decisões políticas de governos e governantes.
Sendo o consumo o suporte essencial do sistema, uma formidável maquinária de propaganda, produção em cadeia, distribuição, obsolescência programada, formação artificial de novos mercados e preços é montada para multiplicar consumidores. Assim, a inovação tecnológica alcançada nas últimas décadas impulsionou a níveis jamais registrados antes o consumo bobo de bens e serviços mesmo desnecessários, porém, geradores automáticos de lucro.
Um mínimo exemplo disso: influenciados pela publicidade e condicionados por uma baixa autoestima, jovens e pobres lideram a triste estatística que revela a porcentagem daqueles que, uma vez por ano, trocam seus atualizadíssimos celulares por alguma razão estética ou um botãozinho a mais.
Jovens e pobres são a parte da população entendida como economicamente ativa que não tem arte nem parte. São dois segmentos sociais em stand by, aguardando ser incorporados aos censos da economia global: os primeiros quando alcançarem a adultez e os segundos quando conseguirem sair da pobreza. Enquanto isso, eles se percebem fora da vida, na rua, numa senzala a céu aberto, do outro lado dos altos muros que protegem a casa grande dos amos.
Então, ter em mãos um celular de última geração, "superinteligente e colorido", gera neles a ilusão do pertencimento a um universo social - que só acessam virtualmente pela publicidade e as novelas da televisão - e, portanto, acham que são aceitos e automaticamente incluídos em um mundo que, na verdade, não os tem em conta para nada exceto para o consumo.
Um elemental raciocínio nos dirá que a humanidade soube encontrar ferramentas e modos engenhosos para garantir a sobrevivência e estender os prazos de sobrevida. Pelo mesmo exercício racional, deveríamos chegar à conclusão de que trocar de carro ou de celular cada vez que aparece um modelo novo não nos faz estar mais vivos nem esticar nossa estadia por este arrabalde do cosmos.
Por outra parte, garantir e melhorar a sobrevivência do ser humano-animal não pode ser um objetivo em si mesmo, mas um meio para atingir um fim superior: permitir ao ser humano-pessoa seu desenvolvimento e crescimento como tal. Precisamos do corpo exclusivamente para realizar nossa alma. Nascer, existir e morrer sem propósito nem significado não faz o mínimo sentido. Viver é poder realizar os sonhos e anhelos mediante os quais se poderá alcançar o grau de evolução que, como ser espiritual, procuramos na experiência terrena.
Longe dos conceitos mercadológicos lastreados na manipulação da matéria, essa alma vivencia outro tipo de experiências, que não têm preço nem se compram com cartão de crédito. O ser álmico vibra em frequências elevadas frente a estímulos visíveis e invisíveis que denotam uma carga de transcendência da mera organização que assume a matéria neste mundo.
Ao se deparar com a vida material - ou energia materializada -, a alma registra inúmeros dados além dos computados pelos cinco sentidos através de pulsações vibratórias dessa energia, que fazem disparar emoções, sentimentos, sensações não mensuráveis pelas ferramentas do mercado.
Isso pode acontecer frente a uma pintura de Van Gogh; a Quinta Sinfonia de Beethoven; um gol de nosso time de coração; o nascimento de uma criança; a morte de um velho mestre; um beijo inaugural; um adeus definitivo; uma amorosa carícia; um poema de cordel; o olhar lacerante de um faminto; o estremecimento gozoso de um amante; o cobre antigo de um pôr-do-sol; o céu anil de um amanhecer.
Encontros e despedidas, vitórias e derrotas, ascensos e descensos, calmas e fúrias, risas e prantos, tristezas e alegrias, são a forja onde essa alma vai temperando-se, e vai revelando-se a si mesma, descobrindo suas sombras e suas luminosidades, aprendendo, corrigindo, na procura de se fazer melhor e mais bela como ser espiritual, enquanto vai decodificando todas essas expressões e circunstâncias da vida e do viver.
O amor, a fé, a esperança, a dor, a empatia, a coragem, não brilham nas vitrines, porém fazem parte da dignidade da pessoa, sua irrepetibilidade, seu mistério, sem cotação na Bolsa de (dis) Valores.
Sem dúvida, neste plano terreno, cada um de nós deve contar com um suporte mínimo: comida, teto, abrigo. Uma trilogia básica que os antigos mestres japoneses chamavam de ishokuju. Isso é o básico essencial que o veículo orgânico que denominamos corpo precisa para sobreviver. E assim, com nosso corpo sobrevivendo, as almas que somos podemos ir fazendo a experiência de aprendizagem e sanação que viemos encarar.
A partir daí, dispor de alguma coisa a mais que o ishokuju deve ser exclusivamente para colocá-la a serviço dessa experiência. Um violão, um trator, um computador, um par de chuteiras, um microscópio, uma filmadora, umas panelas, uma caneta, um celular... Qualquer bem ou serviço que seja um meio para aplicar e desenvolver nossas habilidades inatas, nossos talentos, no exercício das atividades através das quais iremos aprender sobre nós mesmos.
No listado dos anseios da alma não se contabiliza a posse de um telefoninho com três câmaras para tirar fotos de aniversários; nem uma TV de plasma de 136 polegadas para jogar com a playstation; ou uma caminhonete 4 x 4 para levar os filhos para a escola; ou um relógio smartwatch para curtir o Face; nem peitos de silicone para se sentir sexualmente mais atraente. Somos uma alma, um ser espiritual, e nosso negócio é outro. Buscamos aprender sobre valores, amor, arte, beleza, a permanente transformação da existência, as alegrias e as tristezas, o sentido da vida. Tudo aquilo que, de um modo ou outro, em maior ou menor medida, bata no centro do peito, mexa com o coração.
Alguns objetos podem ser de grande utilidade - agora mesmo eu escrevo este texto num notebook. Mas a maior parte dos objetos que guardamos em casa ou os produtos que consumimos são prescindíveis e, antes de tê-los, nem sentíamos falta deles. Tanto assim que, para estimular nossa decisão de compra, somos bombardeados dia e noite com publicidades enganosas que nos prometem o ouro e o louro.
As agências publicitárias afirmam, sem pudor, que para vender um produto tem que ser criada a necessidade do mesmo. Quer dizer, antes do lançamento do produto, nem você nem eu precisávamos dele. Uma trapaça.
Se você parar para pensar, vai ver que a maioria das coisas que nos são ofertadas não passa de artefatos pirotécnicos que jogam luzes de cores com as quais enganamos nosso próprio ego, mas jamais nossa alma. Os espíritos desejam experimentar outras coisas, mais profundas, mais nutritivas, mais vitais, mais essenciais, sempre imprescindíveis para nossa legítima intenção de nos realizarmos e, por isso mesmo, gozar da felicidade.
Certa vez, falando em terapias alternativas, Osho fez a seguinte reflexão: "a massagem não é apenas uma técnica terapêutica ou um trabalho mecânico, mas sim uma arte sutil baseada no amor, na compaixão e na meditação". Ele defendia que a massagem deve ser feita com 90% de amor e apenas 10% de técnica. E acrescentava o seguinte: "hoje precisamos da massagem porque a gente se esqueceu de amar, de praticar o toque do corpo do outro, que não é uma máquina, mas o verdadeiro santuário de Deus".
Parafraseando Osho, poderíamos dizer que hoje precisamos da Inteligência Artificial porque a gente se esqueceu de praticar a Inteligência Natural.
A alta tecnologia não é outra coisa que a tradução na matéria de parte dos conhecimentos e das capacidades que o ser humano já tem gravados em seu cérebro a instância da informação proporcionada por sua alma.
Isso deveria ser visto como uma obviedade, pois é o próprio ser humano quem cria, com sua inteligência natural, programas computarizados que funcionam à imagem e semelhança da estrutura humana, onde o corpo é o hardware, o cérebro o processador e a alma o software.
Milênios de controle, repressão e manipulação do pensamento fizeram uma verdadeira lavagem de cérebro na humanidade. Se não tivéssemos contaminados e condicionados pelo que poderíamos chamar de data-lixo, talvez não precisaríamos de telefones para nos comunicar, pois, como seres espirituais, dispomos de faculdades psíquicas (mediunidade, telepatia, clarividência, etc.) para exercer uma comunicação de qualidade superior, assim como acontecia nos primórdios de nossa civilização e como acontece em civilizações estelares mais desenvolvidas fora da Terra.
Hoje, o exercício dessas habilidades fica restrito a umas poucas pessoas, mesmo que absolutamente todas as almas gozem dessas virtudes em estado de hibernação. É por isto que a tecnologia artificial passou a suprir essas qualidades naturais reprimidas.
E resulta evidente que essas ferramentas auxiliam o ser humano em diversas situações, condições e necessidades. Em matéria de saúde, se desenvolveram equipamentos médicos e tratamentos avançados que oferecem resultados mais rápidos e procedimentos menos agressivos, trazendo soluções que pareciam impossíveis.
Hewlett Packard fez aliança com vários grupos de ajuda humanitária de Botsuana e Quênia para desenvolver uma aplicação que dá a seus usuários a possibilidade de reportar os primeiros sintomas da malária, e esse recurso permitiu conter e evitar epidemias.
Nos Estados Unidos, a Cruz Vermelha desenvolveu uma série de aplicativos de grande utilidade em momentos de emergência, proporcionando informação precisa e relevante na hora de salvar vidas.
Aplicativos específicos para celulares resultam em instrumentos quase mágicos quando é preciso socorrer vítimas de desastres ambientais como inundações, furacões, tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas. A comunicação por meio de mensagens SMS ou de WhatsApp tem demonstrado ser vital em lugares e momentos onde nada mais funciona ou nada funciona tão rápido.
Google disponibiliza um programa de alerta de terremotos comunicada por vibrações nos aparelhos celulares brindando localizações precisas, o que permite às pessoas reagir com celeridade em busca de proteção.
Resulta fantástico ver os refugiados africanos cruzarem toda a Europa carregando em suas costas uma mínima mochila e atesorando em suas mãos o bem mais precioso para essa travessia: um telefone celular. Com ele, mantêm a comunicação afetiva com seus seres queridos que ficaram para trás, contatam outros migrantes já estabelecidos para receber orientações, acessam mapas para precisar seu roteiro, podem ler/ver/ouvir as notícias sobre sua própria situação, eludir odiosos controles e territórios perigosos, pesquisar possibilidades de hospedagem, descobrir oportunidades de trabalho e até receber o bálsamo de sua música preferida.
Tudo isso com um celular, usado com sentido prático para ir normalizando sua vida de humano-animal e poder se dedicar a realizar sua passagem terrenal como espírito de luz. Ou seja, o celular como ferramenta de libertação e não como fetiche para a alienação e a auto-escravidão.
Internet e as redes sociais são o âmbito usado pelos donos das tecnologias para multiplicar ganhos e submeter a população. O meio, temos dito, é o consumo de todo tipo pois é isso que gera o lucro. Mas não é só o consumo. Para manter as sociedades presas a um patrão materialista de pseudo-felicidade se faz necessário alimentar um sistema de alienação, onde as pessoas se despersonalizam e passam a viver no piloto automático da imitação generalizada, onde o celular se faz um instrumento indispensável.
É por esse meio que a atenção das pessoas são captadas e, como se vivenciarem um passe de hipnose massiva, são virtualmente sequestradas por uma formidável maquinária de entretenimento e distração, num infinito fluir de dados banais, um turbilhão de formas e cores que mudam a cada movimento sem significar muito mais que isso, formas e cores. Tudo é superficial, instantâneo, efêmero, alheio. Perdem-se os valores, nada importante tem importância. Nada dura, tudo é descartável.
A tecnologia nos tirou de uma existência integral, lógica e sequencial e nos empurrou para dentro de uma vida fragmentada, paradoxal, aleatória, feita de flashes, de vídeos shorts, textos breves, cliques randômicos, emoticons, fake news. O mundo virtual vai desvirtuando o mundo real. Nesse universo comunicacional, a ideia como fundamento desapareceu. Em consequência, os conteúdos transcendentes são esvaziados e a alma, o interior mais íntimo da pessoa, é impactada pelo peso brutal da sensação de vazio.
No final do dia. esse sentir-se vazio se faz pertubador. E aí o indivíduo já está preso do sistema, pronto para procurar uma compensação psicológica através do consumo de alguma coisa que dê um alívio ao insuportável estado de ansiedade e estresse. Assim controla a Matrix as mentes das pessoas e, em consequência, suas vidas.
A Matrix controla por sintonia de vibração de energia, mas não pode, de jeito nenhum, controlar a consciência das pessoas. Se você deixa de sintonizar a energia que vibra apenas na virtualidade e passa a conectar com as coisas reais da vida, com aquilo que chamamos de carne e osso, e toma distância do uso e abuso compulsivo do celular e as redes sociais, a Matrix não tem como submeter você a seus planos sombrios.
Pessoas já despertas e as que vão despertando à consciência acharam fórmulas e caminhos para usar a tecnologia, a Internet, as redes a favor da luz.
Assim, você vai encontrar os mais diversos perfis com conteúdos que apontam a revelar novos paradigmas por fora dos padrões da Matrix, ideias e práticas que vão se desenvolvendo como novos modelos, mais vinculados com as formas de expressão e organização da natureza e com o fluxo das energias invisíveis que orientam a bússola do coração humano para o norte das verdades universais.
Informação, cursos, práticas que atendem às demandas de nosso corpo e de nossa alma se espalham e se multiplicam pelas redes. Terapias alternativas, educação holística, vegetarianismo, bioconstrução, artes, decrescimento, diversidade sexual, permacultura, movimentos slow, economia colaborativa, consumo consciente, reciclagem, ecovilas, soberania alimentária, energias limpas, negócios sociais, financiamentos coletivos, despertar espiritual, são alguns dos temas compartilhados graças à tecnologia.
É chegada a hora do amor incondicional. E, mesmo que soe pouco romântico, podemos dizer que o aporte tecnológico resulta numa ajuda vital para traduzir em fatos concretos esse amor. Vital para as novas relações sociais, a diversidade das expressões culturais, as novas formas de fazer política e negócios, os novos (antigos) modos de nos amar.
Enfrente as grandes firmas do setor, dirigidas por escuros personagens como Peter Thiel (PayPal, Palantir), considerado "o coração das trevas" do Vale do Silício, aceleram o desenvolvimento da alta tecnologia para aperfeiçoar os mecanismos de informação e consumo que a Matrix utiliza para o controle da humanidade, questionando a democracia e propiciando o retorno a modelos autoritários de governo combinados com o capitalismo hipertecnológico.
Esses projetos do que poderíamos chamar de modo geral de tecnofascismo são idealizados pelas teorias poshumanas e transhumanas do Vale do Silício e de boa parte dos ideólogos que alimentam os delírios de Donald Trump.
Ante tamanha desmesura, se faz um imperativo dos governos a regulação das tecnologias e, em especial, da IA. Também instituições e organizações sociais devem colaborar no estabelecimento de limites, assim como na tomada de consciência sobre a utilização espúria da tecnologia e os objetivos de domínio, submissão e desacralização das pessoas.
Porém, mesmo sem contar com nada disso, você pode fazer tudo isso. Você pode regular o uso que faz das tecnologias, de seu celular, do computador, dos outros aparelhos; pode interagir criticamente com a IA checando o que ela te fala - e também te mente- com o resultado de outras pesquisas; pode botar limites na exibição abusiva de anúncios; pode procurar informação para melhor conectar com sua consciência e se abrir para os alertas sobre as intenções espúrias dos centros tecnocráticos de poder.
Para além do que podem fazer os poderes públicos e institucionais para proteger os cidadãos, a verdade é que, na hora do vamos ver, só você pode salvar você. Porque você é um ser único e irrepetível e ninguém o conhece melhor que você.
Trata-se de cuidar para que essa tecnologia não sirva para a distração cotidiana, onde um clique após outro leva você para onde nem tinha pensado ir, roubando seu tempo e seu foco. Aprender a evitar o consumo daquilo certamente desnecessário que gera uma satisfação ilusória e brevíssima, que se esvai velozmente, nos deixando outra vez vazios, mas agora com a conta do banco diminuída.
Fazer que o celular, o notebook, o tablet, a Internet com todas suas potências, as redes e suas possibilidades, o raio laser, as câmeras de gravar, o GPS, os apps, e muito mais, sirvam para otimizar sua saúde, seu autoconhecimento, sua realização, atendendo sempre o que dita o coração e não os padrões sociais impostos pelo poder imperante, que não conhece você nem se importa com você.
Para isso se faz ineludível a liberação de toda dependência de qualquer tecnologia que tente nos manter no feitiço da alienação consumista, funcionando como máquinas ao ritmo dos algoritmos e encarar o sentido da contramão, para aproveitar as vantagens operativas e criativas das novas tecnologias e coloca-las ao serviço da experiência terrenal do ser mais nobre e profundo que vibra dentro de você e que é animado pela energia transcendente de uma tecnologia infinitamente superior a todas, a de tua alma. ✤
AR 🌻
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mais sobre o tema
Saudade de tudo!…
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!…
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim…
Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!…
Pressa!…
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!…
Como quem fecha numa gota
o Oceano
afogado no fundo de si mesmo…
- João Guimarães Rosa -
| Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. ¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza de polvo y tiempo y sueño y agonía? - Jorge Luis Borges - |
➽ O axioma é tão simples quanto certeiro, uma frase breve, redonda, brilhante, perfeita: estar neste mundo sem ser deste mundo. Uma pérola da doutrina sufi resgatando o cartão de visita de Jesus ("meu reino não é deste mundo"). Uma síntese magistral daquilo que pretenderam explicar milhões de palavras atesoradas nos chamados livros sagrados.
Apenas 7 vocábulos constituindo um cartel luminoso que contrasta com as sombras nas quais foi se esvaindo o objetivo primordial das religiões: re-ligar a alma - extraviada no território labiríntico e limitado da carne - com o infinito fluxo espiritual, o mar escuro da consciência alimentado pela Fonte Original.
O cosmos tem consciência de si e isso lhe permite, por exemplo, fazer uso de sua magistral inteligência para botar harmonia na dança dos astros sem que nenhum pise no pé do outro nem se tropeçem entre eles. Se ficasse sempre ligado a essa consciência, o ser humano traria essa harmonia para si e não se sentiria desditosamente separado da totalidade do cosmos em sua prisão de carne e osso e também não procuraria - como o faz - aventar essa infelicidade se achando, com arrogância antropocêntrica, a única espécie de seu tipo no universo.
Estar neste mundo sem ser deste mundo. A mensagem é mais ou menos a seguinte: brinca, joga com a terra, porém, mesmo empoeirado, lembra-te de que não és apenas terra. Você é, antes de mais nada, o jogador. Mergulhe na lama, chapinhe no lodo e, mesmo quando emergir coberta de barro, feita barro da cabeça aos pés, lembre-se de que não é somente barro, você está jogando com o barro, você é o jogador. E não pertence a este mundo.
A palavra humano vem de húmus, a parte mais rica e fértil da terra preta. O corpo humano está feito de húmus, dessa terra; não tem nenhum elemento físico nem químico diferente dos que fazem parte da matéria terrestre.
Invisível, transparente, o jogador é energia extraterrestre, portador da semente/alma, quem traz o projeto do fruto, daquilo que vem a florescer nesse habitante diferenciado do planeta. O jogador chega de outros mundos e traz na semente a essência do Ser, o espírito do Grande Espírito, a energia do cosmos que quer provar-se e revelar-se germinando no húmus.
O jogador é um meio para que o próprio cosmos possa jogar e experimentar-se na condição humana, nos valores e disvalores, virtudes e defeitos, abundâncias e carências, belezas e misérias, luces e sombras do ser terrestre.
Já feito carne, o húmus é o meio que o jogador invisível usa para experimentar-se a si mesmo. O húmus/terra é tudo aquilo que pode ser visto, como o gesto terno de uma mãe amamentando o filho, a mão que se agita num adeus, a cabeça baixa do derrotado. Também é isso que se toca, se apalpa, como o ombro de um amigo na hora do consolo, a cintura de uma donzela quando se dança um baião, o rosto da criança no carinho de um cafuné.
Do húmus sai também o que se cheira, como o bumbum entalcado de um bebê ou um excitante profumo de donna. Também tudo o que ouvimos, como um grito desesperado, o susurro de um segredo ou o rugido inigualável de uma torcida celebrando um gol. E aquilo que saboreamos, como a manga que chupamos até os fiapos, as lágrimas recolhidas pela língua ou aquela sobremesa ímpar que preparam as mãos sábias e amorosas da vovô.
O que se vê, ouve, toca, cheira, saboreia são os dados concretos da realidade concreta, material, terrena, registrados e processados pelos cinco sentidos de nosso corpo que nos possibilitam fazer diversas avaliações das experiências.
Porém, o essencial é como impactam no jogador os resultados disso, o que sente e como sintetiza tudo isso num significado último, transcendente.
Se a sobremesa da vovô é processada apenas com o sentido do sabor, não passará de um doce, uma mera guloseima, que bem podem ser fabricados em série por desconhecidos confeiteiros e achados na delicatessen da esquina. A sobremesa da vovó será verdadeiramente a sobremesa da vovó se ela conseguir atingir o fundo do nosso coração, nossa alma (a essência do jogador).
Porque, na verdade, esse quitute adquire um significado tão especial casualmente por ser feito pela vovó. E quando a vovó o serve, naqueles pratinhos sobreviventes da louça antiga herdada de sua mãe, ela traz junto um mundo pletórico de sentimentos, imagens, emoções, sensações que passam por nós como uma ráfaga sideral.
É muito mais que um sabor. É a vida toda da vovó traduzida em cheiros, cores, dores, ternuras, alegrias, decepções, temores, boas-vindas, adeuses, carinhos, choros, jogos, gritos, rituais, travessuras, broncas, abraços, desamparos e um sem-fim de símbolos e representações que chegam até nossa alma, vai saber desde onde, desde quando, no momento exato em que degustamos aquela doçura rara, singular, que se faz festa em nossa boca.
Tudo isso que nos acontece, invisível aos olhos, é o que o jogador percebe, intui, registra e processa, como dados de uma outra realidade à parte, intangível, misteriosa, de outro mundo.
Aqui e agora, o jogador está no planeta Terra encarando múltiplas experiências através das quais experimenta uma intenção evolutiva. Porém, para fazer esse jogo, precisa da peça. E aí aparece o duo.
Alma e corpo. Aura e carne. Libreto e personagem. Projeto e realização. Espírito e matéria. Uma sociedade quase perfeita.
Não obstante, esse "quase" faz com que a miúde o duo desafine, se dissocie. Nessa escisão, nessa separação, começamos a viver a prometedora aliança como uma ambiguidade que nos confunde. E, na confusão, nos desesperamos e sofremos por não entender o papel diferente do jogador e da peça.
O jogador - alma/essência - vibra, pulsa, puxa, busca, quer revelar, compreender, mensurar, qualificar. A peça - corpo/matéria - está a serviço, é uma interface entre o jogador e a vasta realidade do planeta.
Quando esquecemos do que essencialmente somos, ficamos atuando somente como peça. Ela se dissocia, se solta de nós, acha que é independente. Fazendo tudo com o corpo desligado da alma, nada é transcendente, tudo se faz mecânico. O bom e o ruim começam e terminam nos registros corporais. A pessoa come, dorme, trabalha, ri, chora, tem sexo, se machuca, brinca, tudo mecanicamente. Prazeres e desprazeres, gostos e desgostos ficam por isso mesmo. Nada significa alguma coisa mais profunda.
Para falar sobre os animais capturados em uma caçada, os caçadores dizem "cobrar tantas peças". Esquecida de sua condição espiritual, feita um robô orgânico, a pessoa desce a sua condição animal, converte-se numa peça, destinada a ser capturada pelos caçadores do sistema dominante.
Essa é a ponta da meada de uma sociedade alienada, submetida, controlada, onde as pessoas perdem seu rumo e seu prumo individuais e passam a ser uma massa uniforme fazendo uma vida de gado. A peça, solta, foi facilmente pega e incorporada como uma peça a mais da engrenagem que controla, manda e desmanda.
Porque a sociedade entre espírito e matéria é como uma moeda, dois lados que, aqui no planeta e por um tempo, serão os lados de uma mesma coisa. Cara e coroa, corpo e alma, de um único e indivisível ser humano. Para conseguir algo usando uma moeda em troca, temos que entregá-la por inteiro. Dar apenas um lado é impossível, mas, se pudéssemos, deixaria de ser uma moeda, pois haveria perdido todo seu valor intrínseco.
Estar neste mundo significa aceitar o corpo que temos e sua maestria biológica como um instrumento que nos permite jogar o jogo da experimentação para descobrir e aprender.
Sem ser deste mundo significa assumir a alma e seu divino projeto, trazido desde lá para fazê-lo realidade cá. Para depois voltar lá, melhorados, com nosso diamante mais polido, como seres mais evoluídos, mais iluminados, mais parecidos com a divindade.
Viver esta vida em plenitude exige manter-se indivisível em corpo e alma. Ficar atentos ao que fala e pede nossa alma e, com o corpo, traduzir esses sonhos em fatos concretos. Sabendo que, em definitiva, cá estamos encarnados num animal terrestre, porém, não somos de cá, somos uma entidade de lá, um animal de galáxia. ✤
AR 🌻
Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, Tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz Tenho que encontrar a paz... - Gilberto Gil - |
➽ Uma explosão você percebe no ato. Mas no que vai acontecendo aos poucos é difícil de notar. Ainda mais se isso tem a ver com costumes, hábitos, padrões que vão modificando-se dia após dia, gotejando a mudança até fazê-la um mar onde você vai flutuando à deriva sem atentar. Assim foi como o mundo foi acelerando, devagar e sem avisar, até chegar ao frenesi dos dias presentes. E a gente nem percebeu. Nem a aceleração nem nossa alienação.
Para perceber, só parando, puxando o freio de mão. Se você consegue parar a roda e, por exemplo, ler este texto até o final, talvez consiga descobrir quanto lhe é roubado de si própria, botando você na correria, feito hamster, para nunca ir a lugar nenhum, sempre chegar ao mesmo ponto, onde a roda viva inicia mais uma voltinha.
Nesse primeiro quarto do século 21 essa velocidade absurda foi aumentando paulatinamente e acabou promovendo uma vida de sprinters. Esforço máximo para cruzar a linha de chegada o mais rápido possível. Fazemos tudo na correria e, claro, de modo superficial.
Ligação por vídeo em vez do encontro pessoal; fast food no drive thru no lugar da comida caseira servida na mesa compartilhada; troca de mensagens curtos em lugar da conversa sem pressa; procura de sucesso imediato perseguindo metas e negligenciando o processo; adultização de crianças e adolescentes queimando etapas do amadurecimento; perda da noção dos tempos da natureza; ansiedade, depressão, pánico, doenças derivadas de uma vida turbinada.
A tecnologia nos tirou de uma existência integral, lógica e sequencial e nos empurrou para dentro de uma vida fragmentada, paradoxal, aleatória, feita de flashes, de vídeos shorts, textos breves, cliques randômicos, emoticons. Nesse universo comunicacional, a ideia como fundamento desapareceu. Em consequência, os conteúdos transcendentes são esvaziados e a alma, o interior mais íntimo da pessoa, é impactada pelo peso brutal da sensação de vazio.
A vida virou um caleidoscópio, um turbilhão de formas e cores que mudam a cada movimento sem significar muito mais que isso, formas e cores. Tudo é superficial, instantâneo, efêmero, alheio. Perdem-se os valores, nada importante tem importância. Nada dura, tudo é descartável.
O mundo virtual vai desvirtuando o mundo real. O cidadão pode atravessar a cidade inteira sem reparar em ninguém. Anda com o nariz enfiado no celular, guiado por um GPS. Até parece que leva um celular nas suas mãos, mas não, o celular é que leva ele pelo nariz. Ele vai viajando dentro do celular, atrapado pelas redes sociais, pelas mensagens, pelas publicidades, pipocando de uma tela a outra, sem olhar para seu entorno.
Esse caos comunicacional, onde vai gastando, apagando seu tempo, é a vida dele. Ele entende a vida pelo avesso, acha que essa é sua vida real e que tudo o que acontece fora da caixinha é uma vida virtual.
Uma pessoa de 50+ poderá achar que todo esse tráfego veloz e barulhento é normal porque, sem notar, foi normalizando a mudança de modo paulatino e hoje já grudou na sua pele. No caso de alguém que nasceu neste século é pior: tudo isso lhe parece natural, pois ele já apareceu no mundo com essa pele. Porém, essa ordem e esse funcionamento das coisas não são naturais, mas artificiais. A natureza tem tempos mais devagar, sequências lógicas, paradoxos criativos, nada é instantâneo nem resolvido num clique, mas em processos mais complexos e ricos.
Artificial é tudo aquilo produzido pelo ser humano e não pela natureza. Pode até imitar elementos naturais, mas não são: flores artificiais, iluminação artificial, grama artificial, inteligência artificial...
Na artificialidade da televisão, da publicidade, das redes sociais a ficção supera a realidade e o ser humano vai perdendo o controle de si mesmo, a personalidade original vai se desmanchando para dar lugar a uma personalidade padrão, onde todo mundo se parece com todo mundo. Na velocidade do acontecer diário, ninguém tem o tempo necessário para a pausa refletiva que permita sequer discernir se o que vai imitar/copiar, faz sentido, tem significado ou utilidade para o seu desenvolvimento pessoal.
Ainda mais, a pessoa faz questão de se parecer com os outros, porque tem medo de ser diferente e ficar isolada. Assim é que vai se alienando (de alien, alienus, o outro, o outrém), desistindo do ser único, irrepetível que é para ser mais um clone do rebanho geral, imaginando um sentido de pertencimento virtual e, portanto, falso.
Por esse caminho, perde-se a essência da pessoa e fica a casca, a roupagem. E a vida em comunidade passa a ser um faz de conta, parece, mas não é. Porque a verdadeira vida em comunidade, onde todos somos um (comunidade = como-uma-unidade), não é uma coisa uniforme, unânime, mas uma colcha de retalhos.
Todos somos um retalho da colcha geral, e a colcha existe porque cada um faz parte com seu próprio tecido, sua textura, sua cor, seus fios originais e exclusivos. E costurar os retalhos dessa colcha leva seu tempo, como tempo leva para as pessoas se conhecerem, criarem confiança, fazer amizade, amalgamar as diversidades numa comunidade.
Nas cidades grandes o cenário piora. Os laços sociais, as referências culturais, os valores, as identidades, a partilha de informação e experiências, se diluem. A comunidade passa a ser um amontoado de pessoas num território compartilhado onde cada um o usufrui em benefício próprio, mesmo se for em prejuízo do outro. Desmancha-se o que é comum, a colcha geral agora é retalhada e cada retalho passa a viver no tempo do murici, cada um por si.
A imensa maioria das pessoas do planeta anda pelas ruas cheias de gente, mas não conhece quem são esses outros nem sabe nada da vida deles. Cada um deambula sozinho em meio à multidão, onde predomina o caráter anônimo dos indivíduos. E isso estimula o sentimento de solidão, a sensação de isolamento no meio de um mar de corpos e rostos estranhos.
Antes da aceleração da vida, as urbes, inclusive as mais populosas, tinham crescido lentamente. As famílias iam passando suas memórias de geração em geração, as tradições - mesmo renovadas - eram mantidas no tempo, os costumes faziam parte de uma forte cultura local e a cultura era criada e recriada a partir do imaginário coletivo, projetado pelo espírito que animava uma identidade social.
O crescimento demográfico, os avanços tecnológicos e a paulatina conversão das comunidades em sociedades mercantilizadas - onde tudo é regido pela movimentação do dinheiro - arrasaram com tudo aquilo.
Hoje as pessoas entram e saem do shopping, da rodoviária, do cinema, da feira, da casa de shows e, apesar de todos serem parecidos, não reconhecem ninguém como seus semelhantes nem se reconhecem a si próprias nos demais. São avatares programados para funcionar em si, mas não entre si. Acham-se parecidos, porém se julgam desconhecidos. E, finalmente, cada um se sente sozinho.
No caos frenético da vida urbana, você pode cruzar com milhares de rostos, mas ninguém sabe de suas penas nem de suas alegrias, de suas certezas, suas dúvidas, frustrações, necessidades, expectativas, acertos, erros, ganhos, perdas, planos, sonhos.
Precisadas de dar uma identidade a quem vão encontrando no caminho, mesmo para ter uma referência mínima do outro, as pessoas resolvem pela aparência, pelo exterior, pelo que olham, mas não pelo que veem. Assim, você é enxergado pelo seu aspecto exterior, pelo disfarce, sem que ninguém tenha em conta sua condição de pessoa, sua essência de alma, toda essa trama complexa de informação sobre o que você é. E se torna apenas um indivíduo, um exemplar de uma espécie, mais nada.
Essa solidão na multidão pode resultar na mais dolorida. Nenhuma solidão dói mais do que quando estamos sós em meio a tantos, sem poder compartilhar nada de nós mesmos, da nossa intimidade, com ninguém. É como se estivéssemos atravessando um deserto de pessoas desertas, gente vazia, rasa. Somos como rês desgarrada nessa multidão boiada caminhando a esmo.
Isso não acontece apenas na rua rumorosa, também vivenciamos essa experiência em nossa vida privada, laboral, profissional, vocacional. Ambientes mais restritos, vínculos fortes, histórias compartilhadas, projetos comuns e tudo parecendo dar certo. Só que isso é na superfície, na formalidade, no protocolo. Na realidade mais profunda, aí onde nós somos certamente nós, a conexão com os outros é frágil ou inexistente. Porque interagimos com indivíduos, seres parecidos a nós, porém, não semelhantes a nós.
Ao contrário da definição do dicionário para a palavra semelhante, quando se fala em pessoas, semelhante não é o parecido, mas o diferente. A semelhança está no fundo, na alma que todos somos e no motivo de nossa passagem por este planeta. Somos uma expressão espiritual num estágio evolutivo. E na condição de ser irrepetível, representamos uma singularidade que procura em outras singularidades outras expressões diferentes, diversas, para cotejar, trocar, aprender. Essa é a semelhança, ser todos diferentes.
O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard dizia que a vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada. Quer dizer, você veio a este mundo para vivenciar uma fugaz existência de experiências. Sabendo algumas coisas, veio a deixar algo disso; ignorando outras, a aprender o que puder delas. Nessa premissa se baseia o que nos evidenciava o mestre da educação Paulo Freire: todos ensinamos, todos aprendemos.
Como você pode advertir, as experiências pelas quais irá passar acontecerão num roteiro de trocas entre almas. Assim, a alma que você é precisa de outras almas. Somente com elas poderá intercambiar aquela informação essencial que é invisível aos olhos. Se a tendência da maioria dos seres humanos é interagir superficialmente, escondendo os conteúdos de sua alma, a experiência que você veio fazer no intercâmbio social deriva num intento falho, num projeto frustrado.
Aí nos sentimos como se estivéssemos detrás do vidro de uma janela, olhando passar a vida, o murmúrio das pessoas, o rumor da rua, as formas e cores do caleidoscópio, porém sem conseguir fazer contato, sem conexão com nada disso. E nos embarga uma profunda sensação de separação do todo.
Mas não são os outros os culpados. O sentimento de solidão escancara-se quando pretendemos ser aceitos, compreendidos, aprovados por esses outros. E acompanhados, ajudados, até salvados por eles.
Podemos nos perguntar: quem pode compreender, aprovar e aceitar você melhor que você mesmo? Quem melhor que você pode lhe ajudar, lhe fazer companhia e lhe salvar? O homem falou: Quem sabe de mim sou eu.
Então, fazer o quê?... Se o plano de socialização, de trocas, de intercâmbio não funciona; se você é incompreendida; se os demais acham você inadequada ou fora dos padrões, não adianta insistir, pois a frustração irá crescendo e a alma irá se machucando.
Como acontece com frequência, você poderá acabar acreditando que o problema é você, achar que todos funcionam cumprindo sua parte na engrenagem geral e sentir que a peça que não encaixa é você.
Poderia até ser se o mundo fosse equilibrado, igualitário, amoroso, justo, belo. Não encaixar aí seria sintoma de alguma coisa fora da ordem. Mas hoje, o mundo não é precisamente isso. Pelo contrário, nesta hora do fim dos tempos ele se revela em estado de descomposição, decadente, caótico, violento, fraudulento.
Então, você não é o problema. Porém, é certo que você não se encaixa. E, no mundo cão, isso não é um defeito, é uma virtude. Você está conseguindo o que a maioria das pessoas não consegue: usar o cérebro para expressar a alma.
Agora, o lance é saber o que fazer com essa virtude e como administrar uma vida sem se sentir uma pessoa errada ou esquisita.
Aí aparece a solitude, a arte de ficar a sós com você mesma, percorrendo o caminho interior.
Enquanto a solidão te joga num cone de sombra alimentada pela sensação de vazio, falta de conexão, isolamento, carência, tudo isso que você experimenta afora, a solitude te permite acessar a luz própria que brilha em teu interior, iluminando as descobertas que propicia o exercício de ficar você junto de você, sendo amigo, irmão, parceiro, companheiro de você mesma.
As sombras da solidão nos assombram quando nós estamos fora/longe de nossa essência e buscamos com desespero um alguém que preencha o vazio de nós mesmos, às vezes até qualquer alguém, para que com seu olhar piedoso nos brinde uma certidão de existência.
Nós já existimos, não precisamos de ninguém para saber que já somos, que já pisamos esse chão. Para nos encontrarmos com alguém, antes devemos nos encontrar com nós mesmos, reconhecer-nos, ser nós por inteiro. Até para chegar no outro assim, inteiramente, e não na carência, mendigando afeto e compreensão e com pouco ou nada para dar ao outro.
Fala-se que a solitude é reservar um tempo para refletir sobre nós, ficar a sós para recarregar as pilhas, reconectar conosco. Seria assim como um isolamento necessário de ser feito de vez em quando. Na verdade, é muito mais que isso.
A solitude é um exercício permanente e natural pelo qual monitoramos o estado da alma. É estar a sós com nós mesmos, coladinhos com o ser espiritual que anima o avatar que nos representa por fora, seja onde for: numa praia deserta, no almoço familiar, na arquibancada do estádio, na cama, na mesa, no trabalho, no lazer, na tristeza, na alegria, agora e na hora de nossa morte (amém). Sempre. Ser nós mesmos 24 horas por dia é a maior felicidade.
A jogada é ir ao encontro do mais essencial nosso. Se nos tratamos com respeito, compaixão e carinho, iremos reduzir a necessidade de validação externa constante, essa dependência tóxica de algo que funciona como uma droga: quando não a temos, ficamos fissurados, apáticos, depressivos e até podemos flertar com ideias suicidas.
Na solitude conseguimos um diálogo amplo conosco que abre as portas do nosso interior para explorar pensamentos mais profundos, emoções complexas e valores fundamentais, sem a influência ou opinião de terceiros.
Ficando frente a frente conosco, podemos olhar sem véus o ser que somos e passar a aceitá-lo por completo, com o bom e com o ruim, com o lindo e com o feio que carregamos. Afinal, seja como for, somos o que somos. Só na aceitação podemos tentar mudar alguma coisa da qual não gostemos.
Nessa visão íntima, é possível enfrentarmos nossos medos, valorizar expectativas e descobrir desejos sem filtros externos, e alinhar nossas ações com nossos verdadeiros valores, propósitos e aspirações.
Sendo seres feitos de luzes onde brilham nossas virtudes e sombras que escondem nossos defeitos, o primeiro passo para entrar na solitude é nos aceitar integralmente e amar-nos de maneira incondicional, compreendendo a inevitável imperfeição da qual somos partícipes.
Afinal, o universo inteiro é mesmo imperfeito, sendo essa imperfeição o fundamento de seu permanente processo de evolução.
Nos aceitando e nos amando, podemos lançar mão de nossas luzes para iluminar nossas sombras, reconhecê-las e saná-las, transformando-as em novas virtudes.
Esse exercício que traduz um modo de ser e estar neste mundo é o que pode se chamar de solitude.
É possível que em certas situações precisemos chutar o balde, queimar as pontes com tudo e todos e passar a morar e viver sozinhos. Quando o desatino do barulho sem sentido, a pressão social e a confusão que atordoa se fazem insuportáveis, é lógico e saudável procurar um cantinho tranquilo, longe da bagunça mundana e perto do nosso coração, onde viver em paz.
Isso pode acontecer em qualquer momento da vida, porém, quando a gente entra na reta final da passagem por este plano, o afastamento pode ser uma demanda imperiosa. É o momento em que os ossos estreitam o abraço com a alma, fundindo matéria e espírito na unidade total da última despedida; quando começamos a transitar a distância póstuma que nos separa de nosso lar, do retorno a casa.
Nessa hora, a pessoa pode precisar ensaiar um reconhecimento mais profundo de si mesma, de sua essência álmica, preparando melhor a volta a sua estrela. Já sem esperar chegadas nem lamentar partidas, sentir-se autenticamente livre, sem espaço e sem tempo, finalmente em paz e silêncio.
Aí a solitude alcança sua plenitude transcendental. Não é apenas tirar o corpo que nos foi emprestado transitoriamente, mas retirar do barulho do mundo a alma eterna que somos. Transcender a manifestação material para redescobrir a essência espiritual, a energia cósmica à qual pertencemos. E isso é uma tarefa em solitário.
Nossa parábola na Terra começa no dia em que chegamos sozinhos e acaba no dia em que vamos embora também sozinhos. Porque, na verdade, esta aventura terrena sempre foi um negócio individual. Pais, filhos, irmãos, vizinhos, amantes, colegas, amigos e inimigos são apenas coadjuvantes ou extras de nossa própria e única obra, onde o protagonista, único e excludente, somos nós.
Não viemos a este canto do planeta a trabalhar para os demais, viemos a trabalhar para nós mesmos. A ideia é que, fazendo o nosso, possamos contribuir com os outros. Eu toco o violão para mim; jogo futebol para mim; sou médico para mim; sou costureira para mim; sou amante para mim. Faço essa experiência para aprender através dela. Mesmo que outros sejam os receptores dos resultados que poderáo servir ao trabalho pessoal deles.
Nosso roteiro sempre foi absolutamente original, irrepetível, inimitável. Como nós mesmos. No fundo, a solitude não é estar sozinhos, mas ser sozinhos.
Você pode morar sozinha e seguir ligada aos demais, aos padrões dos demais, condicionada pelos demais, alienada nos demais. E pode morar com outras pessoas e praticar a solitude. Aproveitar a própria companhia, não a de seu ego, mas a de sua alma.
Se é verdade que morar de maneira solitária pode nos proporcionar certas vantagens, também não é condição para vivenciar, experimentar, praticar a solitude.
A solitude não significa necessariamente oposição à comunidade; ninguém sente mais profundamente a comunidade do que o solitário, e esta só floresce quando cada um se lembra de sua própria natureza, sem identificar-se com os outros, pois somente somos idénticos a nossa pessoa.
O necessário é tomar distância da teia-de-aranha da Matrix, de tudo aquilo que nos atrapa para esvaziar-nos como ser álmico e fazer de nós uma marionete do sistema que sustenta uma organização nefasta contrária aos planos de evolução amorosa que a divindade tem para nós.
A tarefa, na verdade, é simples. Não devemos fazer um trabalho para deixar de ser quem somos, senão todo o contrário: ratificar e validar quem somos. Mas não na aparência e sim na essência, no fundo de nossa alma.
Para isso, o estado de solitude - que muitas vezes demanda uma moradia solitária- pode resultar uma ferramenta maravilhosa de descoberta e reconhecimento de si próprio, que nos facilite ir ao encontro da consciência cósmica à qual pertencemos. E comprovar que somos uma expressão do Grande Espírito experimentando na Terra uma intenção evolutiva, em consonância com a vontade de evolução do Universo. ✤
AR 🌻
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PS:
Às vezes me pergunto se não há uma parte de mim que quer ficar sozinha para sempre. Hoje de manhã, enquanto tomava o chá no jardim, o vento mexia as folhas e parecia que elas respiravam. Me senti pequena, quase invisível e, sem embargo, raramente em paz. O silêncio tinha uma espécie de música. Não comentei com ninguém. Guardei esse momento somente para mim. - Virginia Woolf (Diários)-
Há momentos em que a solitude e o silêncio se tornam meios de liberdade. - Paul Valéry -
Quero ficar só. Gosto muito das pessoas, mas sinto essa necessidade voraz que às vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e, quando vejo, a alegria está instalada em mim. - Lygia Fagundes Telles (As Meninas)-
Não confunda minha solidão com amargura, sou feliz comigo mesmo e posso compartir essa felicidade com um número muito reduzido de pessoas: raras, loucas, livres e autênticas. - Iván Sotelo -
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| O peso de todos os objetos e materiais fabricados pelo ser humano já superou a massa somada de todos os seres vivos na Terra. |
De uns tempos pra cá
Os móveis, a geladeira
O fogão, a enceradeira
A pia, o rodo, a pá
Coisas que eu quis comprar
Deu vontade de vender
Pra ficar só com você
Isso de uns tempos pra cá
De uns tempos pra cá
O carro, a casa, o som
Tv, vídeo, livros, bom
O que em tese faz um lar
Admito eu quis comprar
Começo a me arrepender
Pra ficar só com você
Isso de uns tempos pra cá
Coisas são só coisas
Servem só pra tropeçar
Têm seu brilho no começo
Mas se viro pelo avesso
São fardo pra carregar
De uns tempos pra cá
O pufe, a escrivaninha
Sabe a mesa da cozinha?
Lençóis, louça e o sofá
Não precisa se alterar
Pensei em me desfazer
Pra ficar só com você
Isso de uns tempos pra cá
De uns tempos pra cá
Telefone, bicicleta
Minhas saídas mais secretas
'To pensando em deixar
Dê no que tiver que dar
Seu amor me basta ter
Pra ficar só com você
Isso de uns tempos pra cá
Coisas são só coisas
Servem só pra tropeçar
Têm seu brilho no começo
Mas se viro pelo avesso
São fardo pra carregar
- Chico César -


