| Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. ¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza de polvo y tiempo y sueño y agonía? - Jorge Luis Borges - |
➽ O axioma é tão simples quanto certeiro, uma frase breve, redonda, brilhante, perfeita: estar neste mundo sem ser deste mundo. Uma pérola da doutrina sufi resgatando o cartão de visita de Jesus ("meu reino não é deste mundo"). Uma síntese magistral daquilo que pretenderam explicar milhões de palavras atesoradas nos chamados livros sagrados.
Apenas 7 vocábulos constituindo um cartel luminoso que contrasta com as sombras nas quais foi se esvaindo o objetivo primordial das religiões: re-ligar a alma - extraviada no território labiríntico e limitado da carne - com o infinito fluxo espiritual, o mar escuro da consciência alimentado pela Fonte Original.
O cosmos tem consciência de si e isso lhe permite, por exemplo, fazer uso de sua magistral inteligência para botar harmonia na dança dos astros sem que nenhum pise no pé do outro nem se tropeçem entre eles. Se ficasse sempre ligado a essa consciência, o ser humano traria essa harmonia para si e não se sentiria desditosamente separado da totalidade do cosmos em sua prisão de carne e osso e também não procuraria - como o faz - aventar essa infelicidade se achando, com arrogância antropocêntrica, a única espécie de seu tipo no universo.
Estar neste mundo sem ser deste mundo. A mensagem é mais ou menos a seguinte: brinca, joga com a terra, porém, mesmo empoeirado, lembra-te de que não és apenas terra. Você é, antes de mais nada, o jogador. Mergulhe na lama, chapinhe no lodo e, mesmo quando emergir coberta de barro, feita barro da cabeça aos pés, lembre-se de que não é somente barro, você está jogando com o barro, você é o jogador. E não pertence a este mundo.
A palavra humano vem de húmus, a parte mais rica e fértil da terra preta. O corpo humano está feito de húmus, dessa terra; não tem nenhum elemento físico nem químico diferente dos que fazem parte da matéria terrestre.
Invisível, transparente, o jogador é energia extraterrestre, portador da semente/alma, quem traz o projeto do fruto, daquilo que vem a florescer nesse habitante diferenciado do planeta. O jogador chega de outros mundos e traz na semente a essência do Ser, o espírito do Grande Espírito, a energia do cosmos que quer provar-se e revelar-se germinando no húmus.
O jogador é um meio para que o próprio cosmos possa jogar e experimentar-se na condição humana, nos valores e disvalores, virtudes e defeitos, abundâncias e carências, belezas e misérias, luces e sombras do ser terrestre.
Já feito carne, o húmus é o meio que o jogador invisível usa para experimentar-se a si mesmo. O húmus/terra é tudo aquilo que pode ser visto, como o gesto terno de uma mãe amamentando o filho, a mão que se agita num adeus, a cabeça baixa do derrotado. Também é isso que se toca, se apalpa, como o ombro de um amigo na hora do consolo, a cintura de uma donzela quando se dança um baião, o rosto da criança no carinho de um cafuné.
Do húmus sai também o que se cheira, como o bumbum entalcado de um bebê ou um excitante profumo de donna. Também tudo o que ouvimos, como um grito desesperado, o susurro de um segredo ou o rugido inigualável de uma torcida celebrando um gol. E aquilo que saboreamos, como a manga que chupamos até os fiapos, as lágrimas recolhidas pela língua ou aquela sobremesa ímpar que preparam as mãos sábias e amorosas da vovô.
O que se vê, ouve, toca, cheira, saboreia são os dados concretos da realidade concreta, material, terrena, registrados e processados pelos cinco sentidos de nosso corpo que nos possibilitam fazer diversas avaliações das experiências.
Porém, o essencial é como impactam no jogador os resultados disso, o que sente e como sintetiza tudo isso num significado último, transcendente.
Se a sobremesa da vovô é processada apenas com o sentido do sabor, não passará de um doce, uma mera guloseima, que bem podem ser fabricados em série por desconhecidos confeiteiros e achados na delicatessen da esquina. A sobremesa da vovó será verdadeiramente a sobremesa da vovó se ela conseguir atingir o fundo do nosso coração, nossa alma (a essência do jogador).
Porque, na verdade, esse quitute adquire um significado tão especial casualmente por ser feito pela vovó. E quando a vovó o serve, naqueles pratinhos sobreviventes da louça antiga herdada de sua mãe, ela traz junto um mundo pletórico de sentimentos, imagens, emoções, sensações que passam por nós como uma ráfaga sideral.
É muito mais que um sabor. É a vida toda da vovó traduzida em cheiros, cores, dores, ternuras, alegrias, decepções, temores, boas-vindas, adeuses, carinhos, choros, jogos, gritos, rituais, travessuras, broncas, abraços, desamparos e um sem-fim de símbolos e representações que chegam até nossa alma, vai saber desde onde, desde quando, no momento exato em que degustamos aquela doçura rara, singular, que se faz festa em nossa boca.
Tudo isso que nos acontece, invisível aos olhos, é o que o jogador percebe, intui, registra e processa, como dados de uma outra realidade à parte, intangível, misteriosa, de outro mundo.
Aqui e agora, o jogador está no planeta Terra encarando múltiplas experiências através das quais experimenta uma intenção evolutiva. Porém, para fazer esse jogo, precisa da peça. E aí aparece o duo.
Alma e corpo. Aura e carne. Libreto e personagem. Projeto e realização. Espírito e matéria. Uma sociedade quase perfeita.
Não obstante, esse "quase" faz com que a miúde o duo desafine, se dissocie. Nessa escisão, nessa separação, começamos a viver a prometedora aliança como uma ambiguidade que nos confunde. E, na confusão, nos desesperamos e sofremos por não entender o papel diferente do jogador e da peça.
O jogador - alma/essência - vibra, pulsa, puxa, busca, quer revelar, compreender, mensurar, qualificar. A peça - corpo/matéria - está a serviço, é uma interface entre o jogador e a vasta realidade do planeta.
Quando esquecemos do que essencialmente somos, ficamos atuando somente como peça. Ela se dissocia, se solta de nós, acha que é independente. Fazendo tudo com o corpo desligado da alma, nada é transcendente, tudo se faz mecânico. O bom e o ruim começam e terminam nos registros corporais. A pessoa come, dorme, trabalha, ri, chora, tem sexo, se machuca, brinca, tudo mecanicamente. Prazeres e desprazeres, gostos e desgostos ficam por isso mesmo. Nada significa alguma coisa mais profunda.
Para falar sobre os animais capturados em uma caçada, os caçadores dizem "cobrar tantas peças". Esquecida de sua condição espiritual, feita um robô orgânico, a pessoa desce a sua condição animal, converte-se numa peça, destinada a ser capturada pelos caçadores do sistema dominante.
Essa é a ponta da meada de uma sociedade alienada, submetida, controlada, onde as pessoas perdem seu rumo e seu prumo individuais e passam a ser uma massa uniforme fazendo uma vida de gado. A peça, solta, foi facilmente pega e incorporada como uma peça a mais da engrenagem que controla, manda e desmanda.
Porque a sociedade entre espírito e matéria é como uma moeda, dois lados que, aqui no planeta e por um tempo, serão os lados de uma mesma coisa. Cara e coroa, corpo e alma, de um único e indivisível ser humano. Para conseguir algo usando uma moeda em troca, temos que entregá-la por inteiro. Dar apenas um lado é impossível, mas, se pudéssemos, deixaria de ser uma moeda, pois haveria perdido todo seu valor intrínseco.
Estar neste mundo significa aceitar o corpo que temos e sua maestria biológica como um instrumento que nos permite jogar o jogo da experimentação para descobrir e aprender.
Sem ser deste mundo significa assumir a alma e seu divino projeto, trazido desde lá para fazê-lo realidade cá. Para depois voltar lá, melhorados, com nosso diamante mais polido, como seres mais evoluídos, mais iluminados, mais parecidos com a divindade.
Viver esta vida em plenitude exige manter-se indivisível em corpo e alma. Ficar atentos ao que fala e pede nossa alma e, com o corpo, traduzir esses sonhos em fatos concretos. Sabendo que, em definitiva, cá estamos encarnados num animal terrestre, porém, não somos de cá, somos uma entidade de lá, um animal de galáxia. ✤
AR 🌻
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