Aprender a desfrutar dos prazeres de Zorba, o Grego
e da silênciosa serenidade de Gautama, o Buda.
-Osho-
➽ Nessa frase, que funde a brutalidade carnal e festiva de Zorba com a sutileza meditativa e transcendente do Buda, Osho sintetiza como é o jeito certo do homem ser e estar neste planeta. Conectado com o mundo invisível enquanto caminha pisando no chão.
Sincronizado com o fim dos tempos, ele anuncia a morte do homem velho, um ser que até agora nunca viveu verdadeiramente, de modo pleno e livre, por ter ficado numa prisão que acreditou ser um lar. A mente capturada numa teia de aranha de ideias e conceitos impostos a sangue e fogo, control tecnológico, pensamento único.
Por isso, Osho nos lembra que levamos padecendo um inferno de mais de três mil anos de guerras, enquanto somente de vez em quando um Buda tem florescido. Algo fundamental deve ter saído errado.
O mestre indiano entende que o erro crasso é o homem ter vivido num campo de batalha entre o material e o espiritual, entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo, entre o baixo e o alto, entre isto e aquilo. Sempre dividido em duas opções, onde, claro, uma delas era chamada de inimigo.
Ele denuncia a existência de uma intenção nisso: para destruir o poder do homem, tem sido usada a grande estratégia da divisão. O homem tem sido pressionado a escolher entre ser um materialista ou ser um espiritualista. Disseram ao homem que ele não pode ser ambos.
E essa tem sido a causa raiz da miséria humana, afirma. Um homem dividido contra si mesmo irá permanecer no inferno. O paraíso nasce quando o homem não está mais dividido contra si mesmo. A divisão do homem significa miséria e o homem integrado significa regozijo.
Sua mensagem é: criem um novo homem - não dividido, mas integrado, completo. Buda não é completo, nem Zorba o Grego. Ambos são metade e metade. Eu amo Zorba, amo Buda. Mas quando olho no âmago mais profundo de Zorba, algo está faltando: ele não tem alma. Quando olho dentro de Buda, novamente algo está faltando: ele não tem corpo.
Osho propõe um grande encontro entre Zorba e o Buda, uma nova síntese, que expressaria o encontro do céu com a terra, o encontro do visível com o invisível, o encontro de todas as polaridades: do homem com a mulher, do dia com a noite, do verão com o inverno, do sexo com o samadhi, do sagrado com o profano. Depois, as polaridades desaparecem uma na outra e os polos opostos se tornam complementares. Somente com esse encontro um novo homem surgirá na terra.
Osho entendeu a crise civilizatória que estamos atravessando como um desafio, uma oportunidade de criar o novo, um caos necessário para inventar um novo cosmos. Por isso, na contramão do mundo de degradações e espanto que nos revela diariamente o noticiário, ele declarava que somos afortunados de estar vivos nestes tempos críticos, vivendo numa das mais belas épocas, porque somente através do caos nascem as grandes estrelas. E essa é uma oportunidade que acontece somente de vez em quando - muito rara.
O mestre traduz a simbiose de Zorba o Buda, descrevendo ao novo ser humano como um místico, um poeta, um cientista, tudo junto. Ele não irá olhar para a vida através das velhas divisões corroídas. Ele será um místico pois ele irá sentir a presença de Deus. Ele será um poeta pois ele irá celebrar a presença de Deus. E ele será um cientista pois ele irá pesquisar essa presença através da metodologia científica. Quando um homem for todos os três reunidos, o homem estará completo.
Osho visualiza um ser humano sem condicionamentos ideológicos ou morais, que apreciará a vida através da consciência, da percepção, da espontaneidade, da criatividade. Um ser aberto e honesto. Transparente, real, autêntico. Que não irá viver perseguindo metas, mas experimentando tudo no aqui e agora. Ele conhecerá apenas um tempo, agora, e apenas um espaço, aqui. E através dessa presença, ele conhecerá o que Deus é.
Este é -diz- meu conceito de um homem santo.
É assim que Osho nos descobre a existência de uma oportunidade para criar um novo ser humano. E para criar um novo ser você tem que começar com você mesmo. Você pode ser Zorba o Buda. Um homem, uma mulher, íntegros, na completude total de seu yin e seu yang. Acatando na carne o mandato divino de sua alma.
O planeta e a humanidade ainda passarão por baitas chacoalhadas, mas o novo ser humano já é uma semente estelar da qual irá florescer o novo mundo.
A florescer-se, então, a florescer-se. ✤
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| O samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor, o grande poder transformador. - Caetano Veloso - |
➽ O transe pelo qual está passando o planeta, a humanidade e demais espécies vivas tem, obvio, suas réplicas no Brasil. E por aqui também vai acabar com tudo aquilo do velho mundo que não seja genuíno, legítimo, autêntico, original. É a transição planetária, o fim dos tempos, o amanhecer de uma nova era, nos puxando para uma outra dimensão, outra vibração, mais elevada, mais digna, pedindo para nos livrar de tudo o que há de ruim em cada um de nós e acender nossa luz sanadora e liberadora. É o tempo da verdade, quando tudo será revelado. E tudo o que não for verdadeiro vai se desmanchar no ar. Como disse Elza Soares: fora tudo aquilo que não presta.
Entre as coisas que nos sobreviverão, sem dúvida, estará o samba. Essa genial criação brasileira morta tantas vezes e tantas vezes ressuscitada, pela simples razão de estar bem abrigada na alma do povo.
Se, como insiste em deixar constância Chico Buarque, o brasileiro é mesmo fruto da miscigenação entre o índio, o português e o negro ("eu sou uma mistura disso tudo", se orgulha Chico), foi o africano quem acabou dando o tom predominante da alma brasileira. Mundo afora, o Brasil é enxergado como um país de negros, seja para admirar ou, mesmo, para degradar. Não são as Xuxas nem as Giseles Bündchen as impressões digitais do país tropi, mas o DNA dos Pelé, Ronaldinho, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Machado de Assis, Mãe Menininha, Arthur Bispo do Rosário, Pixinguinha, Milton Santos, Zumbi dos Palmares, Ilê Aiyê, e por aí vai.
Língua, religião, culinária, literatura, arte, dança, esporte, comportamentos e, claro, a música, foram permeados, influenciados e determinados por aquele fluxo de energia astral que os africanos escravizados trouxeram nos navios negreiros. Isso era toda sua bagagem, mas tudo isso tinha um peso tão transcendente que acabou definindo os rasgos mais fortes da alma brazuca.
Nesses navios de carga, espremidos nos porões superlotados, homens, mulheres, crianças, velhos, cantavam o tempo todo, para espantar a morte, para mitigar a sorte. Os escravos vieram cantando para o Brasil e desceram na terra nova, cantando.
Saídos de diversas paisagens e tribos africanas, os cantos e as danças, festivos uns, religiosos outros, ritualísticos e alegres todos, foram se misturando. E foi a cavalo dessa música que, como nos cantou Caetano e nos contou Joaquim Nabuco, "a escravidão espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade, insuflando no país sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte…”.
A mistura dessa musicalidade africana começou a ensaiar-se nas festas -muitas vezes clandestinas- onde o negro descontava a dilacerante experiência da escravidão cantando e dançando jubilosamente, no júbilo de estar vivo, de possuir uma voz, de afirmar-se na existência dizendo pro céu ainda estou aqui.
Assim foram nascendo as rodas de batucadas, derivadas em rodas de samba na Bahia, que sentaram uma base rítmica, que depois, no Estácio, em Rio de Janeiro, mestres iluminados acabaram de aprimorar para criar uma identidade plena.
A transformação do samba em música nacional não foi um acontecimento repentino, mas o coroamento de uma tradição secular de contatos entre vários grupos sociais na tentativa de inventar a identidade e a cultura popular brasileira.
Assim, como escreveu Jorge Caldeira, aquele samba inscrito em seu projeto de trânsito pela sociedade, se converteu "no ritmo oficial da pátria, e como tal, passou a ter história. Só que uma história na qual o passado é refeito em função do presente". Transformação.
Tulio Ceci Villaça, estudioso e observador perspicaz da nossa musicalidade, tem escrito em seu blog Sobre a Canção o seguinte: "Lembrei de uma frase que Jackson do Pandeiro gostava de repetir: tudo é coco. E quando ele tinha de definir o coco, dizia: é samba. Pode parecer um reducionismo tremendo, mas o fato é que funcionava na prática… Para ele, baião, xaxado, xote, quadrilha, e diversos outros ritmos, todos, de maneira diferente, eram samba".
Jackson do Pandeiro (1929-1982) é um paraibano que começou tocando coco e forró. Mas quando chegou ao Rio de Janeiro, percebeu que as rádios, os produtores, o público pediam samba. "É samba que eles querem, todo mundo vai de samba, a pedida é sempre samba". A partir do samba, ele tocou e cantou ritmos de temperos diversos, mas sempre com gosto de samba.
E a pedida geral encontrou sua maior resposta via Rádio Nacional, que espalhou por todo o território a inconfundível batida do samba. Assim, a essência do samba acabou permeando ritmos, gingas, costumes, linguagens, cheiros, sabores, sentires e pensares. Hoje, você vai encontrar um Clube do Samba em qualquer estado do Brasil.
Talvez essa música tão singular seja o maior legado do negro africano e sua descendência brasileira, que deram de presente para todo mundo usufruir. O regocijo por cantar e dançar samba é algo que vai além da cor da pele, além da carioquice, e até mesmo, de cantar e dançar.
Trata-se de uma energia transcendente que está nascendo e renascendo o tempo todo, se reinventando sem pudor, exercendo esse seu grande poder transformador. Não apenas para os negros, mas para todo mundo, para todos nós que hoje transitamos pelos cantos, por vezes escuros, outras vezes luminosos desse sanatório geral em que virou a Terra, no fim dos tempos, onde e quando devemos encontrar as medicinas para a sanação de nossa alma.
Por ser esse diamante verdadeiro, que sobreviverá por longo tempo, o samba pode ser um dos grandes remédios. E a vida vir a ser o mais perfeito carnaval. Saravá. ✤
AR 🌻
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| Si he perdido la vida, el tiempo, todo lo que tiré, como un anillo al agua, si he perdido la voz en la maleza, me queda la palabra. - Blas Otero - |
➽ Tudo se esfarelava numa explosão inédita e sem fim. Deus chorava aos prantos, sem consolo, feito uma criança abandonada no meio do nada.
Com pés de veludo, Deus - o Deus de Deus - chegou a seu lado, suave, compassivo, fraterno:
- ¿Por que choras?
Ainda aturdido, quase afogado em um mar de lágrimas e babas, Deus alcançou a balbuciar:
- O Big Bang, senhor, o Big Bang...
- Eu sei, eu sei, mas... ¿o que tem o Big Bang?
- Um tempo incalculável de duro trabalho, senhor... E tudo, tudo foi pro espaço... A gente perdeu tudo, senhor, absolutamente tudo...
- Tudo, não. Ainda tens a palavra. Vai, ordene o caos. Você ainda tem um poder, use-o.
Deus - o Deus de Deus - não falou mais nada. Deu um tapinha encorajador nas costas de Deus, ensaiou uma piscadinha cúmplice e assim como tinha aparecido, sumiu.
Dizem que Deus hesitou uma eternidade. Porém, ao cair de uma tarde de ensurdecedor silêncio, ele se reergueu. Lavou seu rosto, respirou fundo e mergulhou lentamente nas sombras da escuridão.
Caminhava às cegas, apenas com um fio de fé. Quando sentiu haver chegado ao negrume do espaço sideral, parou. Titubeava. Mas, afinal tomou coragem, invocou a seu Deus e, com o coração na boca, exclamou: faça-se a luz! E a luz se fez.
Então, ele soube que a palavra iluminava. ✤
AR 🌻
Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia mais doce da vida
Na mesa dos homens de vida vazia
Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz
Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida nos cantos, na pia
Na casa dos homens de vida vadia
Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz
Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida, nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens de olhos sombrios
Mas, vida, ali eu sei que fui feliz
Luz, quero luz
Sei que além das cortinas
são palcos azuis
E infinitas cortinas
com palcos atrás
Arranca vida, estufa a veia
E pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca vida, estufa a vela
Me leva, leva longe, longe, leva mais..
Luz, quero luz... mais, quero mais...
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➽ Uma alma que desce aqui, que encarna neste planeta, é uma entidade chegada de céus longínquos com um projeto de evolução de si mesma absolutamente original. Com dons, talentos, tempos, desafios, possibilidades próprios.
Energia pura, a alma cai como um raio, toca a Terra e precisa, urgente, um tradutor cinético, alguém, algo que lhe permita expressar-se e trilhar os caminhos de sua jornada por estas bandas da galáxia, tão promissórias e paradisíacas como árduas, complexas, hostis.
A alma precisa de um corpus, um corpo, um boneco, um robô com flexibilidade de carne, orgânico, autônomo, com cara única, um rosto exclusivo de si mesmo.
É, então, quando um humano macho e uma humana fêmea oferecem sua comunhão para doar a essa alma um receptor, um corpo de características humanas. Nesse papel temporário, o homem assume sua tarefa de criador, autor, iniciador, pai. A mulher se fará leito, causa, origem, mãe.
Na hora marcada, a carne inaugurada no alumbramento e a alma se abraçarão na irrupção primeira com um grito-bebê, um alarido-neném, celebrando a bendita aparição neste plano, porém padecendo, desde o início, a certeza da desarmonia terrenal que vem pela frente. A vida é bela, sim, porém esse mundo é mesmo cruel. E essa alma, consagrada como filho, já sabe disso.
A palavra filho quer dizer originário (de), descendente (de). Um filho - e todos o somos - não é originário de algum lugar da Terra nem é descendente de certos pais ou avós. Ele é oriundo de uma estrela distante e descende dela. Muitas vezes, sequer tem laços cósmicos com os seus familiares terrenos.
Assim, quando chega um filho, não é uma coisa nossa, um pertence ou uma propriedade pessoal. Aquele que chega, antes que um filho nosso é um irmão nosso, um irmão espiritual, um outro espírito estelar, vinculado a nós pelos fios da fraternidade universal.
Esse irmão chega pleno como entidade cósmica mas, encarnado num corpo mínimo, inicia a caminhada diminuído em suas potências de realização. Concerne ao irmão-pai e à irmã-mãe protegê-lo e orientá-lo em sua iniciação, a fim de que a sua parábola terrenal seja bem-sucedida. Entendendo que a experiência particular desse ser faz parte de nosso ensaio geral, de nosso projeto coletivo, do Plano Maior.
Nesse tempo, pai e mãe ensinarão a alma-filho como é esse negócio das possibilidades e limitações de andar ancorado a um corpo humano, interatuando com outros congêneres. Paulatinamente irão lhe mostrando as regras gerais, mas sempre deverão ser respeitados sua índole, seu jeito, seu modo singular de estar no mundo, seus tempos e até suas próprias regras.
Um ser a quem chamamos de filho é alguém semelhante a nós, porém absolutamente original em sua essência, um exemplar único. E assim deve ser enxergado, tratado, considerado e respeitado. Quando esse filho cresça, vire adulto, se torne independente, será um a mais de nós, outro homem, outra mulher.
Nós não cuidamos de uma criança, pois ela é uma circunstância temporal; nós cuidamos de um adulto numa etapa inicial de seu desenvolvimento. É o fundamento -a base física, psíquica e espiritual- desse adulto de amanhã que estamos cuidando na criança de hoje, esse semelhante a nós, esse irmão nosso.
In'lakech. Com essa palavra, se cumprimentavam os maias quando se encontravam no caminho com algum indivíduo, fosse conhecido ou desconhecido. In'lakech quer dizer eu sou outro você. E esse "você" é outro eu. Alguém que, assim como eu, um belo dia desceu por estes arrabaldes da galaxia, um espírito libre, libre de tudo e libre de mim. Parecido a todos nós, mas idêntico a si mesmo.
Essa individualidade vem sendo vulnerada há muito tempo pelos pais, zelosos e corujas, fazendo as crianças de reféns. Seja por excesso de zelo, por apego, por superproteção, por egoísmo, por condicionamentos culturais ou religiosos, por carências pessoais, por ter renunciado a seu próprio projeto de vida e tê-lo substituído pelo controle e manipulação do projeto do filho. Assim, a miúde, pais e mães fazem de seus filhos algo assim como uma propriedade, da qual eles podem dispor como bem entenderem. Erro crasso.
Para ter a felicidade de um mundo diverso, colorido, nobre, amoroso, e belo, em incesante movimento de evolução é condição ineludível respeitar a sagrada identidade das crianças para que elas possam, já desde cedo, fazer seu original aporte à construção e enriquecimento de uma sociedade nova, uma nova comunidade de irmãos humanos.
Para isso, se faz necessário libertar as crianças. Deixar fazer, jogar, experimentar, arriscar, até mesmo se machucar nas brincadeiras. Estimulá-las a pensarem livremente, a sentirem em liberdade para elas poderem ir se descobrindo, se reconhecendo, se conhecendo, se encontrando com seu âmago, suas singulares visões de si próprias e do mundo.
É preciso soltar as meninas e os meninos para elas puderem navegar no fluxo da vida. É imprescindível abrir mão desse sentido de posse disfarçado de amor. Isso não é amor, não. Deixemos as crianças voarem e, simplesmente, vamos acompanhando elas na sua própria e irrepetível experiência. Sejamos facilitadores e colaboradores incondicionais de seus próprios exercícios de busca e descoberta e não mais pais castradores e repressivos. Nossas crianças trazem muita novidade e nós podemos aprender muito com eles.
Lembremos sempre que esse ser, antes que um filho meu, é um filho da vida- como sou eu mesmo, como você é -, assim como nos ensinava o grande mestre Khalil Gibran, nesse belo e iluminador poema sobre os filhos:
Teus filhos não são teus filhos
eles são os filhos e as filhas
da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de ti, mas não de ti
e embora estejam contigo
não te pertencem.
Podes dar-lhes o teu amor
mas não teus pensamentos
pois eles têm seus próprios pensamentos.
Podes abrigar-lhes o corpo
mas não sua alma
pois sua alma mora na casa do amanhã
que tu não podes visitar nem mesmo em sonhos.
Podes esforçar-te para ser como eles
mas procura não fazê-los ser como tu
pois a vida não anda para atrás
nem se demora no dia de ontem.
Tu és o arco do qual teus filhos
como flechas vivas, são disparadas.
Deixa que tua inclinação
na mão do arqueiro
seja para a alegria.
★★★
AR 🌻
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| Não se iludam, não me iludo tudo agora mesmo pode estar por um segundo. - Gilberto Gil - |
➽ O fim do mundo. A frase é breve, contundente, inquietante. Toda vez que alguém fala "fim do mundo" pode ser percebido o dissimulado pavor dos ocasionais ouvintes. O pessoal fica sem jeito, dando risinhos nervosos ou, então, lançando alguma ironia, ou um encolhimento de ombros, alguma coisa que sirva para afugentar um pânico repentino, vindo do nada. De preferência, o assunto é evitado. Porém, instalado por bíblias diversas, o tema está aí, no inconsciente coletivo, faz um bom tempo.
Na segunda metade do século 20, toda vez que era lembrado o vindouro ano 2000 -por vezes com profecias outras com brincadeiras-, aparecia aquela ideia do final do mundo. Na verdade, a maioria da população sequer imaginava viver até 2000, um ponto distante cósmicamente da cotidianidade, um número mais ligado a relatos de ciência ficção que à carnalidade terrena dos calendários Pirelli.
E não é que, afinal, o mundo não se acabou no ano 2000, hein... Mesmo apreensiva, a humanidade decidiu exorcizar seus temores fazendo festa, celebrando a virada de século. E fez bem. Só que uma vez já pisando o indecifrável território do terceiro milênio o assunto nos persegue, pertinaz, teimoso, ameaçante, em predições astrológicas, literatura mística, filmes de catástrofes, projeções científicas. O ponto de inflexão foi em 2012, ano-símbolo das profecias maias que auguravam o que eles chamaram o fim dos tempos.
Já fora por leviandade, ignorância, interpretações errôneas, oportunismo comercial ou mera perversão, vinculou-se o fim dos tempos com a ideia do Armagedom bíblico e se traduz isso como o fim do mundo ou, mais precisamente, como o fim do planeta e a espécie humana.
Claro que todo e qualquer evento pode se apresentar repentinamente, sacudindo a Terra, incluso o mais desastroso. Afinal, como escreveu João Guimarães Rosa, "tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar". Nós somos apenas um ponto no espaço, dependente de infinitas sincronias fora de nosso controle, até de nossa compreensão. Tudo bem. Mas devemos ficar sabendo que não existe algo assim como uma data derradeira, nem um dia agendado para um juízo final, muito menos um castigo preconcebido e global.
Em rigor, os maias não anunciaram nenhuma destruição global senão o final de um ciclo planetário y cósmico, que poderia, sim, trazer a aparição de eventos climáticos extremos, mas, sobretudo, o fim da atual civilização humana, baseada num paradigma exclusivamente materialista, competitivo, confrontativo que estimula o medo e o ódio entre as pessoas.
Se pararmos para observar o desenrolar da transformação de nossa realidade cotidiana e refletimos sobre esse fato, iremos constatar que esse tal "fim do mundo" já se verifica no mesmo fim das coisas tal como a gente as conheceu, como elas existiram até há pouco tempo, sejam materiais ou imateriais.
Essa é a tendência. Absolutamente tudo o que foi criado na civilização agonizante terá um fim. É isso que estamos vivenciando e que, em grande medida, desnorteia às pessoas mais velhas. Algumas coisas simplesmente desaparecerão por sempre (espécies, culturas, objetos...) e outras se reciclarão em novos significados, adotando novas formas e espíritos diferentes.
Do trabalho às artes, dos esportes à ciência, da religião à economia, tudo irá se transformando, muito mais rápido do que a gente pode imaginar. Não estamos perante uma crise conjuntural, não se trata de uma crise econômica, estamos imersos numa crise estrutural e terminal de uma civilização, de um modo de compreender e administrar a vida em sua totalidade, imposto a sangue e fogo e que se estendeu por milhares de anos .
Podemos nos fazer de distraídos, sair assoviando baixinho, fechar os olhos às gritantes evidências, porém todos enxergamos que o mundo atual está um caos. Assim, pressentimos que alguma coisa fora da ordem está acontecendo. Já estamos sendo noticiados de mudanças profundas em diversos âmbitos que nos deixam de queixo caído e embargados de receios.
Ondas de calor ou de frio matando milhares de pessoas; derretimento das calotas polares; aumento do nível das águas dos mares; crescente desertificação; veloz degradação dos ecossistemas; chuvas ácidas; tsunamis; terremotos; multiplicação de ciclones; inundações devastadoras; diminuição das fontes de água potável; extinção massiva de diversas espécies animais e vegetais.
Nada disso tudo é profecia nem anúncios apocalípticos a ser verificados no futuro. São fatos, dados concretos, com os quais já estamos convivendo aqui e agora, sem que ainda lhe outorguemos a importância decisiva que têm para nossa própria vida, para nossa sobrevivência mesma. Fatos impactantes que fazem que, em meios científicos já esteja se falando de uma sexta extinção em massa.
Em simultâneo, em nossas sociedades assistimos a inéditas expressões de conflitos, revoltas, guerras, degradação de valores espirituais, atos aberrantes, ondas migratórias, pestes, fome massiva, loucura coletiva.
Em meio a esse quadro dramático, que a gente tenta maneirar no dia a dia, aparece uma inesperada pandemia e todo mundo sente esse estranho sentimento de pânico com silenciador, que gera a sensação de que o fim está ali, à volta da esquina, lembrando o que dizia o poeta: tudo agora mesmo poder estar por um segundo.
Sim, há um apocalipse a caminho.
E teremos aquele gran finale, sim ou sim.
Apocalipse soa como uma palavra sinistra, pavorosa, por estar vinculada à ideia bíblica de um fim do mundo trágico, que arrancaria do planeta a humanidade toda exceto uns poucos escolhidos pela divindade.
E, na verdade, todo o cenário foi configurando-se para um destino de hecatombe, ainda mais nas últimas décadas. Segundo o último informe Nuclear Weapons Ban Monitor, os nove países considerados potências nucleares possuem um total de 9.576 ogivas (bombas) pronta para serem usadas, com um poder equivalente a mais de 135.000 bombas atômicas como aquela jogada em Hiroshima. Dá para aniquilar várias vezes a todas as espécies terrenas.
Contudo, o significado da palavra apocalipse nada tem a ver com nenhum Armagedom nem calamidade parecida. Apocalipse significa, literalmente, revelação. É o descobrimento, a apresentação de uma grande verdade já anunciada há séculos atrás em diversos lançamentos proféticos.
Foi Jesus quem falou aquela sentencia revelada no versículo bíblico João 8:32 que diz: "E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará". Essa verdade vai se revelando aos poucos e mostrando e demonstrando que nem tudo é matéria densa, palpável, visível nem tudo começa e acaba com ela. Há muito mais por trás dos corpos, das coisas, das aparências. E é aí, nos bastidores espirituais, onde se desenrola a verdadeira existência das coisas que encontram na matéria sua manifestação visível.
Traduzindo para os tempos atuais poderíamos dizer que a posse, a propriedade e o controle que as elites mantém das representações materiais -coisas, pessoas, terras, animais, etc- é um engano, pois elas exercem a sujeição do vasilhame, mas não do conteúdo. Quando as pessoas tomarem consciência disso, alcançarão a verdade, acabarão com sua própria ilusão e, assim, ficarão libertas.
Estamos atravessando um período de tribulações no qual o arcabouço do sistema vai rasgando. É o início de uma transição dos tempos de escuridão -regidos por um apego trágico ao materialismo- para uma nova civilização. Surge outro modo de estar no mundo, onde uma maior espiritualidade, baseada no amor incondicional e os valores universais, pode gerar um equilíbrio mais frutífero e feliz entre a densa matéria -onde tudo se manifesta- e o sutil espírito -que a tudo lhe da vida.
Hoje a existência se nos apresenta caótica, contraditória. Por uma parte, multiplicam-se os fatores que nos separam. O ódio, a agressão banal, os enfrentamentos ideológicos, divisões religiosas, falsos modelos de moralidade, duvidosos nacionalismos. Mas, ao mesmo tempo, nunca houve tantas e diversas expressões de amor entre os humanos. Mais pessoas estão na procura da paz, apreendendo a controlar suas emoções, sendo mais tolerantes e compreensivas com seus semelhantes, dando lugar a circunstâncias de respeito e solidariedade, de unidade com o planeta e o cosmos.
Em meio ao caos, hoje experimentamos um mundo de simulação. Se imita a verdade, finge-se o que é. Vivemos numa sociedade de mentiras, de falsificações, de imagens, de aparências. Os polêmicos projetos do Metaverso e do ChatGPT pretenden converter a cada um de nós numa mentira, nos subtrair da condição de seres reais -e, por tanto, verdadeiros- para devir em personagens de uma ficção de algoritmos, predeterminada por um punhado de programadores digitais.
Estamos experimenando o que os maias profetizaram. Eles falaram que a definitiva desestruturação da atual civilização materialista seria precedida por uma etapa de escuridão, na qual o céu e o inferno estarão se manifestando ao mesmo tempo. E cada ser humano viverá em um ou em outro, dependendo de seu próprio comportamento. No "inferno", com a ignorância, para aprender, na marra, com sofrimento. Ou no "céu", com a sabedoria, para transcender voluntariamente tudo o que vir a acontecer, seja bom ou ruim, e assim aprender, crescer, evoluir e até ser feliz no meio do caos.
De um jeito ou de outro, esse é o caminho que cada um de nós têm pela frente para o mesmo objetivo: sanar as dissonâncias que desconfiguran nossa natural harmonia. Só que na escolha do céu, do próprio céu interno, aquela parte luminosa de nosso ser, mesmo que resultando ardua será menos dolorosa que atravessar as chamas de nosso inferno.
Os maias sublinhavam que isso seria desse jeito porque o passo evolutivo de uma civilização esgotada para uma nova não seria de maneira coletiva senão individual. A partir dessas mudanças individuais, então, seria possível a conformação de novos coletivos sociais.
Isso nos leva pensar na necessidade de fugir dos enganos da ilusão elevando nossa consciência, nossa capacidade de ler a realidade como ela é. Enxergar o mundo com uma mirada penetrante que transcenda a superficialidade dos fatos. Transpassar o muro virtual dos discursos ocos, das publicidades enganosas, do marketing impositor, da notícia sensacionalista, dos símbolos vazios. Não apelando apenas para os nossos limitados sentidos, mas, sobretudo, para esse magnífico sistema de informação que é a intuição. E será por aí que acharemos a ponta da meada e começaremos a tirar as máscaras que disfarçam a verdade.
O velho mundo está agonizando. E em paralelo e em simultâneo outro mundo pugna por nascer. Nesse intermédio é que estamos, no meio do nada e no meio do tudo. Numa transição que endereça para outra dimensão da experiência humana. Transição que não será leve nem fácil, porém alumiará uma vida nova, um tempo melhor, mais justo, mais harmonioso, mais integrado.
O novo humano será um ser de outro patamar evolutivo, que converterá em simples memória a angustiante realidade deste presente de egoísmos, injustiças, violência, medo, ódio, desamor. Será o tempo de uma Terra renovada, mais rica, mais diversa, e de um ser humano espiritual, transcendente, livre, amoroso, belo. Será o tempo da delicadeza.✤
AR 🌻





